Filho do 25 de Abril

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quarta-feira, dezembro 28, 2005

681. Diário das Presidenciais 2006 (12)



Pedro Magalhães é o autor do - excelente - blogue Margens de Erro, que tem tido um importante papel na análise das sondagens em diferentes eleições. Há dois dias publicou diversos quadros sobre a evolução ao longo do tempo das intenções de voto válidas. Reproduzo agora as palavras do autor do blogue:

"Os gráficos seguintes permitem-nos apreciar visualmente a plausibilidade desta hipótese genérica [mudança real nas intenções de voto válidas ao longo do tempo]. Vou manter isto também simples, para benefício de todos incluindo eu próprio, que tenho lacunas importantes de formação técnica quando de trata de analisar séries temporais.

A linha sólida é a que melhor se ajusta aos dados na pressuposição de uma relação linear entre a passagem do tempo e o resultado das sondagens. A vantagem desta análise consiste em que podemos ver até que ponto as diferenças entre sondagens podem ser tratadas mero "ruído" em relação a uma tendência geral. A desvantagem, claro, é a pressuposição de uma relação de linearidade entre a passagem do tempo e as intenções de voto, pressuposição essa que pode ocultar outro tipo de tendências. A curva tracejada resulta de uma regressão polinomial ponderada loess (ou "regressão local") aos dados, em que os pontos da curva são previstos pelas observações imediatamente adjacentes (e não por todas as observações, o que resultaria numa linha igual à da regressão linear). Vantagens e desvantagens são simétricas em relação as associadas à pressuposição de linearidade: sensibilidade a evoluções não lineares, mas excessiva sensibilidade a mudanças de curto prazo e "outliers"."


(...)

Assim, em síntese:
1. Sinais muito claros de subida para Soares, com dispersão grandemente explicada pela passagem do tempo;
2. Sinais claros de descida para Alegre;
3. Estabilidade genérica para Jerónimo e Louçã, mas maior incerteza para o segundo;
4. Incógnita (e, à falta de melhor, estabilidade) para Cavaco.








Sem ser especialista na análise de sondagens não posso deixar de fazer uns comentários genéricos:

1. Parece cada vez mais claro que a campanha está a esvaziar o efeito novidade da candidatura de Manuel Alegre. Para isso deve estar a contribuir a opção de Alegre em fazer a campanha no "centro político". É que Alegre sempre foi visto como a reserva de esquerda do PS e estar a fazer uma campanha contrária à imagem pré concebida não lhe está a ser favorável. Também é possível que esteja a diminuir a resistência do eleitorado do PS em aceitar a (re) candidatura de Soares;

2. Mário Soares está em clara subida mas é preocupante - para a sua candidatura - que seja essencialmente à custa de Manuel Alegre. E esse "assalto" às intenções de voto de Alegre tem um "tecto" insuficiente para as ambições de Mário Soares. A tendência nas intenções de voto em Cavaco Silva é relativamente estável e insuficiente para inverter o resultado final das eleições. Mas Mário Soares sabe que a sua única hipótese, numa primeira volta, é segurar o máximo de votos à esquerda e, por isso, até lhe é favorável - enquanto Manuel Alegre estiver com esta tendência nas intenções de voto - que Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã não desistam e segurem os "seus" eleitorados.

5 Comments:

  • At 1:31 da manhã, Blogger MigDeF said…

    Concordo inteiramente. Por isso achei uma estupidez os apelos de Jorge Coelho e de António Vitorino aos candidatos de Esquerda para desistirem a favor de Soares. Não é nada líquido que isso ajudasse a que houvesse uma 2ª volta - pelo contrário: como foi dito, Louçã e Jerónimo podem captar votos na 1ª volta que não iriam necessariamente para Soares em caso de desistência desses dois candidatos.

    Claro que podemos fazer duas avaliações mais maquiavélicas da intenção desses apelos:

    1. Intenção "psicológica" - passar a ideia que Soares é o melhor posicionado para derrotar Cavaco (as primeiras sondagens não eram claras);

    2. Intenção de "marcar" os outros candidatos de Esquerda, em especial Alegre, e isentar de responsabilidades o aparelho socialista - como quem diz "se perdermos à 1ª volta, a culpa não é de Soares nem de Sócrates nem da Direcção do partido, mas dos outros candidatos que não quiseram desistir (especialmente, como disse, de Alegre).

     
  • At 1:57 da manhã, Anonymous bravo said…

    Tenho muitas dúvidas relativamente à seriedade das sondagens que se fazem neste nosso país. Nas últimas eleições autárquicas houve duas sondagens na última semana de campanha, uma para o Porto e outra para Sintra, da mesma empresa, que falharam as previsões (davam a vitória ao PS, o que no caso do Porto foi um erro substancial) e relativamente às quais circularam na Cidade Invicta boatos com credibilidade que as davam como pura e simplesmente... fabricadas. Só não cito aqui o nome da empresa porque, óbvia e infelizmente, não tenho provas. Mas sei bem a gravidade do que aqui afirmo!!

    Porque refiro agora isto? Porque disse há uns meses, entre amigos, que havia uma ou duas empresas de sondagens que iriam começar por dar baixa percentagem a Mário Soares e, à medida que o tempo fosse passando, os valores começariam a subir. O avanço de Cavaco era tão grande que Soares só poderia aspirar a mudar tal situação de desvantagem inculcando nos eleitores essa ilusão de subida nas intenções de voto - os portugueses estariam a reconsiderar, a vitória certa de Cavaco (o tal passeio na avenida) não seria afinal tão certa. Essa ilusão, combinada com uma estratégia de ataque pessoal cerrado a Cavaco, seria a única forma de forçar uma segunda volta.

    Por isso, tenho dificuldade em aceitar a tal relação linear entre a passagem do tempo e as intenções de voto. Onde é que eu já vi isto?

    Se estiver errado, cá estarei para dar a mão à palmatória. Mas se estiver certo, o que diz isto da nossa democracia?

     
  • At 2:16 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Caro fmb,

    Quanto ao voto útil também já referi que, nestas eleições, não tem lógica. Pressuponho que o apelo de Coelho e Vitorino tinham como intenção principal atingir Alegre e não a obtenção da vitória de Soares.

    1. Concordo!

    2. Concordo! Apesar de dificilmente ser uma teoria que "pegue" no eleitorado!

    Abraço,

     
  • At 2:21 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Bravo,

    A tua "teoria" seria mais credível se Soares estivesse a ganhar votos a Cavaco. E isso, para já, não é claro. Cavaco tem intenções de voto estáveis - ou para já sem tendência definida de descida! Soares está a ganhar votos a Alegre e do modo que a campanha está a decorrer não fico surpreendido com esta tendência.

    Ainda torna-se menos credível a tua teoria se tivermos em consideração que nenhuma empresa de sondagens tem impacto a menos que seja credível. E duvido que hajam empresas de sondagens que voluntariamente queiram perder essa credibilidade por questões conjunturais de influência incerta nos eleitores. Essa influência é incerta porque às vezes até é melhor que o candidato que vai à frente não tenha sondagens demasiado favoráveis porque pode desmobilizar o seu eleitorado.

    Abraço,

     
  • At 3:36 da manhã, Blogger JG said…

    Não vou tecer comntários porque já todos disseram tudo e não há muito mais a acrescentar. Aliás, ao passar por aqui, foi só ler os posts, os comentários (sempre interessantes) e deixar um abraço e os votos de um Bom Ano Novo.

     

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