Filho do 25 de Abril

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sábado, março 11, 2006

808. O Nosso Fado


Jorge Sampaio - Paula Rego

Esta pintura, encomendada por Jorge Sampaio a Paula Rego, é curiosa. Não vou discutir a sua beleza como obra de arte – eu sou um apreciador da pintura de Paula Rego – mas sim a imagem que Jorge Sampaio vai deixar e que este quadro ajuda a compreender. Se eu fosse um pintor e um político como Jorge Sampaio viesse ter comigo e encomendasse uma pintura que retratasse o seu mandato eu ia ter um dilema. Não podia mostrar um Presidente muito enérgico, decisivo ou até influente porque ia soar a falso. Provavelmente optava por uma pintura parecida a esta. Não sei se Paula Rego voluntariamente pintou Sampaio como um homem só, com cara de rezingão em relação ao que se passa à volta, curvado pela impotência da sua actuação... mas é só isso que eu consigo ver ao contemplar esta pintura.

A actuação de Jorge Sampaio foi tão discreta que só uma Presidência Aberta promovida por Cavaco Silva contra a lamúria (para manter a tradição) pode ajudar a fazer esquecer o desastre que é o balanço do seu mandato. Não vou voltar a dissecar o caso Barrancos, a roda livre com que o país andou no segundo mandato de Guterres, a má gestão da saída de Durão Barroso, a confusão com que se tornou a dissolução da Assembleia aquando da saída de Santana Lopes, a sensação de que o Procurador Geral da República é impune pela defesa duma estabilidade podre, a sensação de que o Presidente nunca foi ouvido ou tido em consideração nos inúmeros alertas que lançou e, como dizia, não vou voltar a dissecar estes casos mas não posso deixar de voltar a enumerá-los.

Tenho pena, mas muita pena, que os mandatos de Sampaio tenham sido, para mim, uma completa desilusão. É que eu tenho a convicção que Jorge Sampaio é um homem sério, incorruptível, humano. Simplesmente nunca soube compreender que a estabilidade não é um valor em si mesmo e que a retórica só é útil quando é consequente. Um Presidente não deve substituír-se ao Governo mas deve ser influente de forma a dinamizar o executivo e a sociedade para a criação de consensos e rupturas que permitam um desenvolvimento sustentado do país. Apeteceu-me, inúmeras vezes, chegar à beira do nosso agora ex-Presidente e, ao abaná-lo de forma vigorosa, gritar: “Acorda, não vês o que está a acontecer à tua volta? Dá um murro na mesa, porra”!

Só mesmo um mandato como o de Sampaio e os inúmeros erros dos executivos mais recentes permitiram que Cavaco Silva saísse do seu mausoléu como um político providencial. Eu pergunto-me, muitas vezes, como é que um político sem carisma que só me faz lembrar os burocratas do Antigo Regime consegue bons resultados eleitorais. Mas a vitória de Cavaco Silva, democrática e clara, é algo que tenho que aceitar, por mais que não me reveja neste rumo que Portugal insiste em ter, ou seja, nesta atitude providencialista em relação ao Estado que durante tanto tempo sustentou regimes que nem precisaram de usar força excessiva para manterem-se no poder. É o nosso fado. Mas, como dizia, só mesmo um mandato como o de Sampaio podia fazer com que todos aceitem, com naturalidade, um Presidente da República tomar posse como se fosse o novo Primeiro Ministro. Confesso que engasgo-me sempre que Cavaco fala em “cooperação estratégica com o Governo” porque não há nada mais anti-democrático ou subversivo das regras constitucionais do que isso. Eu nem acho natural haver cooperação estratégica entre todos os partidos para “salvar o país” (na senda das declarações de Cavaco de que não percebe o contraditório perante um acontecimento único) e muito menos acho isso saudável com o Governo. O papel do Presidente é criar consensos e rupturas para criar as condições ideiais para o desenvolvimento do país e não substituir-se ao Governo ou cooperar com este. No limite coopera com todos – Governo e oposição – para atingir as soluções que melhor se adaptam ao contexto. Na tomada de posse lembrou-se de mais um conceito maravilhoso, o da “estabilidade dinâmica”. Novamente só mesmo um mandato como o de Sampaio podia fazer um Presidente defender este conceito inovador em que o inalterável ganha o adjectivo enérgico.

Sampaio e Cavaco são a nossa face, um povo que não arrisca nem tem iniciativa, que prefere a estabilidade e os homens providenciais e, fatalmente, está sempre a ouvir o mesmo fado.

Nota Final: Só volto a colocar textos no próximo fim de semana. Mantém-se a moderação de comentários. Até já.

15 Comments:

  • At 11:32 da tarde, Blogger Zecatelhado said…

    Concordo na íntegra.

    Um @bração do
    Zecatelhado

     
  • At 11:35 da tarde, Blogger Zecatelhado said…

    Mais uma coisa: Este texto, com a tua licença, vai figurar no "podium" do Tadechuva durante a semana que se segue.

    Zecatelhado

     
  • At 7:04 da manhã, Anonymous Ortogal said…

    A história rectificará certamente,pela mão dos seus revisionistas de serviço. Mas julgo que é hora de lutar contra essa coisa errada e irracional chamada estado. Não só o social, o dito providência, mas todo ele. Hora de investir nos lugares, vilas e comunidades locais de pessoas que efectivamente se conhecem. Hora de desprezar os homens e mulheres bidimensionais e plásticos que, em essência, não existem nem nunca existiram. Hora de juntar as múltiplas identidades humanas numa identidade global feita de proximidades e do calor humano dos homens e mulheres que efectivamente se relacionam. Merda pois para o ciberespaço. Merda pois para os satélites e as demais invenções de uma modernidade escravizante. Em muitos séculos que virão, esta pode ser a última oportunidade para nos afirmarmos autenticamente, como seres vivos herdeiros de uma história sem paralelo conhecido em todo o universo.

     
  • At 8:55 da manhã, Blogger H. Sousa said…

    Ricardo:
    Como já tivémos ocasião de esclarecer, concordo no geral com as tuas posições. As divergências são de ordem técnica. Neste caso não há qualquer divergência, nem mesmo técnica. Vamos ter que aceitar os resultados democráticos, por mais que não queiramos.
    Ressalvo, porém, um aspecto positivo do discurso dele, o empenhamento que se propõe no combate à corrupção. Neste aspecto ele pode fazer muito porque uma simples crítica do Presidente é suficiente para que o "tio" ou "tios" em causa se vejam compelidos a demitir-se. Mas será que irá pôr em prática o que disse? O futuro o dirá.
    Abraços e boa semana de trabalho a partir de amanhã.

     
  • At 10:34 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Zecatelhado,

    Obrigado pela visita e pelo destaque.

    Abraço e uma boa semana,

     
  • At 10:39 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Ortogal,

    Não sei se compreendo a real extensão do que defendes. Note-se que não sou nem liberal nem defendo um Estado tutelar e defendo que a solução está a meio destes dois extremos.

    Porém uma coisa é certa, ou seja, nota-se que a sociedade, a ciência e a tecnologia não estão ao serviço dos seus cidadãos ou pelo menos da sua maioria. Há muitos "avanços", concordo, que só pioraram a nossa qualidade de vida e degradaram os nossos direitos.

    Abraço,

     
  • At 10:47 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Henrique,

    Se a amostra do combate à corrupção e à nomeação dos "tios" é a altura em que o actual PR foi PM então estamos com um problema sério. Não vou partilhar o teu optimismo a menos que me aperceba que algo mudou na cabeça do nosso PR ou pelo facto de ser um partido diferente do seu acalme este ímpeto.

    Note-se que no seu discurso de posse falou na Educação, Finanças, Segurança Social, Justiça. Tudo bem se tivesse dado destaque às áreas da sua maior competência, ou seja, Defesa, Política Externa. Mas não e nem sequer uma palavra sobre direitos e deveres, sobre aprofundamento da Democracia, sobre liberdade. Tudo isto seria normal na tomada de posse dum PM, não de um PR. É o meu PR porque sou democrata mas só por isso não vou mudar a minha opinião de que o seu perfil está desadequado ao cargo e só mudo de opinião quando aperceber-me que estava errado.

    Obrigado pelos desejos de bom trabalho que estendo a ti. Um grande abraço,

     
  • At 10:52 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    E não é k este quadro da paula rego (dos k vi em serralves) é o k + gosto a nível de produto final? E calculo k n partilhes a opinião ;) (o k vale é k n tens saldo pa responder) :p ate amanha

    A Mascote,

     
  • At 10:55 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Cara Mascote,

    Não tenho saldo, é verdade, mas encontro sempre formas de responder! ;) - nem que seja reproduzindo o que escreveste ;)!

    Quanto ao quadro da Paula Rego desculpa contrariar-te mas partilho a tua opinião de que está bem conseguido como produto final. A única nuance é que também gostei dos quadros expostos em Serralves.

    Bjs,

     
  • At 12:35 da tarde, Blogger Senador said…

    Boa tarde,

    Quando olho para o quadro só consigo olhar para as mãos. Parecem padecer de um problema muscular que não as deixa movimentar como seria suposto. Do mesmo padeceu Sampaio enquanto PR, não teve músculo para tomar as decisões que devia deixando a situação até não haver mais nada a fazer.

    Abraço

     
  • At 4:33 da tarde, Blogger O Raio said…

    O Presidente da República devia falar de cooperação estratégica com o país, não com o Governo...
    concordo com muito do que dizes, Sampaio foi um desastre como Presidente da República.
    Ainda por cima tinha uma insuportável retórica europeista que o levou a andar por outros países (bálticos, por exemplo) a fazer propaganda da União europeia... no mínimo humilhante...

    Quanto a Cavaco e tendo em atenção de que tem algumas competências em política externa, é espantoso como é que este tema nem foi aflorado no seu discurso.

     
  • At 8:56 da manhã, Anonymous Savonarola said…

    Aqui está uma profunda - e, por esse motivo, rara - análise de um mandato presidencial. A nossa Constituição deixou muito pouco espaço de manobra ao Presidente da República, razão p+ela qual, a meu ver, esta figura do Estado dispõe de pouca capacidade de intervenção. Lembro-me de ter lido O Embaixador, de Morris West e de uma das cenas retratadas nesse livro se prender com um discurso presidencial: seria o facto de o presidente discursar no Parlamento e de usar uma determinada frase-chave, que desencadearia uma situação revolucionária, que não recordo de momento.

    Qualquer discurso presidencial português está desprovido desta qualidade, a de intervir e de criar novos factos transformadores da sociedade. Naturalmente, já nem me refiro à criação de situações revolucionárias... O único factor decisivo de que o PR dispõe constitucionalmente é a chamada "bomba atómica", a dissolução da Assembleia da República. Ora, o Sampaio usou-a...

    O que significa isto? Que o PR pode desfazer sempre o Parlamento? Confesso que, como bomba, me parece muito pouco "atómica". Para que o fosse, seria necessário "atomizar" os partidos dissolvidos. Um abraço

     
  • At 3:52 da tarde, Blogger magnolia said…

    Olá Ricardo,
    não posso sair sem dizer que, desta vez estou de acordo contigo, porque também eu "confesso que me engasgo sempre que Cavaco fala em “cooperação estratégica com o Governo”.
    O nosso sistema político é um sistema semipresidencialista, em que o Governo depende do Presidente e da Assembleia da República, devendo para tal existir uma harmonia funcional entre estes 3 órgãos de soberania. Tudo bem...mas a mim preocupa-me particularmente essa aptência natural do Cavaco para colaboraçoes governamentais, unido de forma indiscreta com o governo, contra a Assembleia da República.
    Ocorreria o mesmo se não houvesse maioria absoluta? Não me parece!
    Bjs

     
  • At 11:04 da tarde, Blogger Bart Simpson said…

    de facto, a imagem podia ser mais feliz...

     
  • At 4:09 da tarde, Blogger Alien David Sousa said…

    Um pequeno detalhe. O quadro retrata bem o J.Sampaio. As mãos caidas como se não soubesse o que fazer com elas. Uma estranha postura e um semblante a que nos habituou. :|

     

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