Filho do 25 de Abril

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sábado, março 11, 2006

806. Sala de Cinema: Brokeback Mountain


Jake Gyllenhaal e Heath Ledger em Brokeback Mountain

Realizador: Ang Lee
Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams

É melhor esquecer, para já, que se trata de uma história de amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Vamos supor que é uma daquelas (típicas) histórias de amor impossível, por exemplo, por uma guerra secular entre as famílias do casal. Por este prisma chega-se à conclusão que é um filme igual a tantos outros com o mérito de conseguir ser intenso e com a diferença de, ao contrário de (tantos) outros filmes românticos, o amor não conseguir vencer certos obstáculos.

Vamos, então, colocar as cartas em cima da mesa. A história narra o amor entre dois homens e a união plena entre estes não tem como obstáculo desavenças familiares mas a incapacidade de um deles ultrapassar as memórias e a realidade da sociedade intolerante onde vive. E o que parece ser uma banal história de amor – e que noutro contexto até seria – é um murro no estômago pela forma genuína e intensa como o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é retratado. O filme consegue incomodar – duma forma estranha – pela forma tão natural como apresenta estas cartas na mesa.


Brokeback Mountain, um filme de Ang Lee

Ang Lee não filma, na minha opinião, o melhor filme da sua (brilhante) carreira mas só este realizador consegue transformar histórias que quebram as regras não escritas do politicamente correcto em histórias que parecem saídas do cinema clássico, ou seja, que são perspectivas inovadoras sem o parecer. A América aparece aqui como um cenário cheio de possibilidades – extensões infinitas duma natureza arrebatadora – que se extingue na fraqueza do homem, contagiado pela intolerância do homem.

Heath Ledger é imenso no seu papel de Ennis Del Mar e o seu grande “azar” foi Philip Seymour Hoffman ter uma interpretação “do outro mundo” como Truman Capote. Ennis é um homem rude que não sabe lidar com os seus sentimentos e que, no interior, é um turbilhão. A frustração de um amor impossível destrói a sua vida – e a dos que o rodeiam – lentamente e sem piedade e dessa frustração nasce a raiva. Heath Ledger é excelente a retratar esta panela de pressão que acumula angústia e liberta raiva. Jake Gyllenhaal e Michelle Williams são o contraponto da interpretação de Heath Ledger e, apesar de cumprirem o seu papel, não percebo as nomeações para o Óscar.

Na minha opinião fez-se justiça na entrega dos Óscar, ou seja, a sensibilidade da realização é mais poderosa que o filme em si. Os cenários povoam os protagonistas de nostalgia e solidão e é nisso que Ang Lee é especialista.

Síntese da Opinião: Ang Lee tem o mérito de conseguir transformar um tabú em algo natural. A sua marca está presente na melancolia e solidão que as suas personagens emanam. É só pena que a excelente realização de Ang Lee e a arrebatadora interpretação de Heath Ledger não sejam suficientes para fazer uma obra prima.

Memórias do Filho do 25 de Abril: Sétima Arte (todos os textos deste blogue sobre cinema)

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2 Comments:

  • At 6:16 da tarde, Anonymous Max @ Devaneios Desintéricos said…

    Excelente síntese amigo Ricardo. Focaste os pontos essenciais...

     
  • At 1:33 da manhã, Anonymous raintreecrow said…

    Neste filme tão bonito, de poucas palavras, mas muito intenso, a fotografia e realização são excelentes, assim como a brilhante interpretação de Heath Ledger. Como ele evoluiu, meu Deus, desde que comecei a vê-lo representar...

    Para mim, o melhor filme de Ang Lee, que me faz suster a respiração com tanta beleza( história, interpretações, cenários, BSO, guarda-roupa) ainda é "Crouching tiger, hidden dragon"...

     

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