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sábado, março 04, 2006

803. Páginas Soltas (20): O Implacável Tempo, Henrique Sousa


O Implacável Tempo - Henrique Sousa

O Henrique (do blogue Hora Absurda) escreveu uma reflexão sobre o tempo. Baseado em múltiplos estudos científicos e pensamentos filosóficos escreveu uma obra que nos ensina e enriquece e, acima de tudo, que nos faz reflectir e pensar.

Em vários capítulos há uma uma súmula de contributos de vários autores que, de uma forma ou de outra, contribuem para a noção de tempo que temos actualmente. O Henrique organiza todos estes pensamentos por capítulos e não se limita a simplesmente expor os vários raciocínios porque cria uma continuidade entre os contributos e aproveita essa ligação para reflectir sobre o que é, afinal, o tempo.

Há capítulos em que não consigo compreender a total extensão das reflexões apesar da linguagem ser quase sempre acessível porque, na realidade, é preciso ter em consideração que os meus conhecimentos de física são limitados. Há também reflexões em que não partilho as conclusões. Tenho, porém, uma certeza, ou seja, estou na presença de um livro que nos obriga a pensar, que transmite conhecimento e que é um veículo de divulgação da ciência, nas suas mais diversas formas (sim, faz lembrar Carl Sagan).

Há dois capítulos que gosto especialmente, “Sentido Único” e “Causal ou casual?”, provavelmente porque os temas levantados nestes dois capítulos interessam-me de forma particular. Nestes capítulos, em particular no “Sentido Único”, há uma visão pragmática da vida que espelha algum desalento. Fico com a sensação que a fé não estava presente aquando da escrita destas linhas. Ficam aqui alguns excertos de reflexões feitas neste capítulo que é mais sociológico que os restantes:

“Os homens, na ânsia da eternidade individual, procuram formas de se rever na espécie, cuja duração lhes parece eterna, e adoptam comportamentos colectivos, como se a espécie fosse um único organismo vivo.”

“Alguma vez alguém se lembra do nome ou da cara do empregado que o atendeu num centro comercial? Mas recorda-se, talvez, da marca da peça de roupa que lá comprou porque a marca é mais importante na medida em que vive mais tempo que o empregado e, sobretudo, porque nos permite a ilusão da longevidade.”

“A História da Humanidade é uma história de luta contra o tempo, em que certos grupos procuram apropriar-se do tempo que pertence a outros que dele ficam privados.”

É curioso ter acabado de ler o livro numa viagem do Porto para Lisboa no pendular. Dentro do comboio o tempo é uma contagem decrescente rumo a um destino. A vida também é isso. Há muitos destinos que são percorridos por todos nós mas cuja contagem decrescente é diferente para cada um. Diria até que é aí, na incerteza do tempo (numa das suas acepções) que falta para chegar a cada destino, e, ao mesmo tempo, no controlo que dispomos (ou não) para influenciar essa contagem decrescente, que a vida surge como um fenómeno simultanemamente manipulável e arbitrário. Não podemos manipular o que é arbitrário mas há algumas regularidades que permitem um certo controlo (se é muito ou pouco deixo a reflexão para cada um dos leitores deste texto).

Por muito mais que queira controlar o tempo reconheço, com humildade, que a vida só vale a pena se esse controlo não for absoluto. Mas, por vezes, somos nós os responsáveis por perder o tempo certo e, outras vezes, é o tempo que nunca é certo connosco. Espero ter tempo para chegar aos meus destinos no tempo certo. O tempo, o implacável tempo.

P.S. Henrique, Este texto está a ser publicado num contexto particular da tua vida. Pensei adiar a publicação mas achei que é o tempo certo para a publicação. Um grande abraço.

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