Filho do 25 de Abril

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quinta-feira, fevereiro 23, 2006

794. Sala de Cinema: Munich



Realizador: Steven Spielberg
Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Mathieu Kassovitz, Geoffrey Rush

Munich é um filme que causou muita polémica. Pessoalmente acho que a polémica nasce do tema e não propriamente da obra. A obra deve ser encarada como ficção baseada em factos reais porque a quantidade de erros históricos sublinham essa opção pela ficção. Acho, sinceramente, que este filme é uma obra que falhou a muitos níveis e, em primeiro lugar, no tipo de imagem que passou para o público. Quem estava à espera dum filme que retratasse um conjunto de situações do pós Munique em registo de documentário sai do filme completamente desiludido e quem estava à espera, por outro lado, que fosse um filme que servisse de reflexão para a escalada de violência no conflito entre judeus e árabes também sai defraudado tal é a forma caricatural como os temas são abordados. Por isso considero que o filme deve ser considerado de ficção – e esta é pouco credível, na minha opinião – baseado em factos reais.



Comecemos pela premissa do filme: os atentados em Munique desencadearam uma quantidade de ajustes de contas sem fim à vista. Já aí o filme começou a desvirtuar a história porque Munique não foi mais do que um acontecimento mais mediático – nem foi o mais grave – dos múltiplos ajustes de contas que já tinham começado bem antes. Centrar todo o tipo de acontecimentos que seguiram Munique em Munique prejudica a própria construção da personagem principal e todas as discussões pretensamente filosóficas que atravessam o filme. A personagem de Eric Bana parece viver atormentada por flashbacks de acontecimentos que não assistiu. O filme quis, ao mesmo tempo, contar uma história intimista e uma história política, e não o faz da melhor maneira nenhuma das duas.

Avner (Eric Bana) é o agente da Mossad que está encarregue de perseguir e assassinar as pessoas que estiveram envolvidas em Munique (apesar de quase nenhuma ter estado directamente envolvida). A construção desta personagem é praticamente toda ficcionada e Avner nunca consegue ganhar o realismo necessário que o filme exigia. O próprio grupo de “agentes da Mossad” parece saído dum grupo de especialistas do Ocean's Eleven, versão assassinos, sem qualquer tipo de credibilidade emocional.



A sucessão de assassinatos carece, assim, de uma linha condutora que nunca encontrou em Avner. Multiplicam-se conversas filosóficas em locais pouco prováveis e a única coisa que consigo achar credível na evolução de Avner é o crescendo de medo, não o de culpa. Há, durante todo o filme, uma tentativa de humanizar as vítimas dos assassinatos mas isso é feito através de situações implausíveis (conversa dum escritor com a dona da mercearia, introdução duma filha que toca piano ao assassino do pai, conversa numa varanda de um hotel entre Avner e o seu alvo com um casal de pombinhos pelo meio, e por aí fora). Tentar fazer de cada assassinato um acto com repercussões morais não cria realismo e Spielberg podia ter aproveitado outros factos históricos, como a morte por engano de um empregado de mesa na Noruega por ter sido confundido com uma pessoa da lista, para não necessitar de um enquadramento moral tão complexo. O próprio envolvimento dos vários vendedores de informação como o “Papa” – e outras agências de espionagem - não acrescenta nada ao filme e ocupa uma grande fatia deste. Queria também referir que filmar em locais conhecidos da Europa e tentar fazê-los passar por outros também não ajuda a credibilizar o filme para quem conhece os locais.

Para não dar a sensação de que este é o pior filme que já vi na vida tenho que dizer, a favor do filme, que a reconstrução da época está irrepreensível e que a opção de fazer o filme sem grandes cenas de acção também é um ponto positivo. A forma crua – apesar de nunca conseguir ser amoral – com que é filmado faz com que o filme ganhe alguns pontos. E, apesar de tudo, é um filme oportuno para reflectir como a violência gera a violência. É só pena ser uma obra menor. Para além de tudo o que já referi devo acrescentar que, acima de tudo, o filme é chato e maçador.

Síntese da opinião: Uma obra menor que fica longe do potencial inicial do tema.

Memórias do Filho do 25 de Abril: Sétima Arte (todos os textos deste blogue sobre cinema)

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6 Comments:

  • At 7:07 da manhã, Blogger pedro oliveira said…

    Concordo com quase toda a análise que efectuas.
    Curiosamente, o filme até começa bem com a cena "de cama" e com algum humor.

     
  • At 10:25 da manhã, Blogger Rui Martins said…

    Seria interessante ter uma abordagem mais imparcial e distante do tema... Mas tb em época de "guerra ao terrorismo", pós 11 de Setembro e tendo em conta as raízes judaicas de Spielberg, este teria mesmo condições para o fazer?

     
  • At 12:10 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Fica a intenção de julgar as duas partes que se mantêm em conflito... e sabe-se lá por quanto tempo! E esta é a pergunta que fica no ar... depois daquele último encontro com as Torres Gémeas como pano de fundo!

     
  • At 8:48 da tarde, Blogger A. Cabral said…

    Achei que o filme ia muito longe no contexto actual, humanizar os palestinanos e' algo que choca o pensamento unico nos EUA - consulte-se uma entrevista no Der Spiegel com Spielberg, em que o entrevistador o acusa de apoioar o terrorismo com este retrato dos palestinianos.

    Quanto 'a factualidade, parece-me que a ficcao e' baseada na vida de alguem muito semelhante ao Avner. A retaliacao a Munique fez-se com muitos muitos grupos e agentes e nao com este simplista 4(7) magnificos. Mas o que me parece importante para alem do retrato do caos do assassinio e' que Spielberg nao esconde que Munique foi desculpa para um banho de sangue.

     
  • At 7:11 da tarde, Blogger r.dias said…

    não posso discordar mais de ti Ricardo... Munich é tão bom que nem parece do Spielberg.

    E esta frase diz tudo.

    bj grande

     
  • At 12:33 da manhã, Anonymous raintreecrow said…

    Munich é um óptimo filme; ninguém me consegue convencer do contrário. Dps q o Spielberg ganhou estatuto, é que decidiu começar a fazer coisas realmente boas e não apenas filmes para o mainstream.

     

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