Filho do 25 de Abril

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terça-feira, janeiro 24, 2006

752. Reflexão das Presidenciais 2006 (2 de 4): O fenómeno Manuel Alegre



É preciso analisar a candidatura de Manuel Alegre – e os seus resultados – numa perspectiva bem mais alargada do que a da afirmação simplista de que se tivesse sido o candidato apoiado pelo PS a derrota de Cavaco Silva teria sido possível. Eu não sei se é assim...

O eleitorado que Manuel Alegre conquistou – surpreendentemente mais do que um milhão de cidadãos – tem origens muito diversas. É óbvio que conquistou muito eleitorado tradicional da área socialista mas também parece-me óbvio que parte – não sei até que ponto significativa – dos seus apoiantes apareceram de entre aqueles que estão desiludidos com os partidos e com a situação actual do país. Arrisco até a dizer que parte dos eleitores que votaram em Manuel Alegre surgiram dos que já se recusam em votar neste PS. É por isso que nenhuma conclusão pode ser retirada quando analisamos se Manuel Alegre apoiado pelo PS poderia ter evitado a vitória de Cavaco Silva.

A personalidade de Manuel Alegre não é do meu especial agrado! Respeito o seu – importante – papel histórico e considero que até podia ter sido um Presidente da República de rupturas. Mas o movimento que gerou ultrapassou em muito a sua pessoa e é isso que saúdo! Saúdo também todos aqueles que fizeram um exercício de cidadania activa, raro em Portugal, dos quais destaco o Vítor, porque foi “da [sua] penumbra” que “irrompeu a petição”!

A pergunta milionária do momento é o que vai florescer desta candidatura. Afirmo com segurança que não há tradição – e diria até mentalidade – dos portugueses terem uma participação cívica regular. Duvido até que o exemplo que Manuel Alegre deu – independentemente das suas motivações – vá passar a ser uma regra. O papel dos partidos está esgotado mas também por falta de sentido de cidadania dos portugueses que cada vez mais preferem criticar o poder instalado – seja de que quadrante vier – do que, eles próprios, terem uma participação activa nas nossas escolhas públicas. Essa participação activa ou esse sentido de cidadania não se esgota numas eleições e, quanto muito, recomeça. Mas não há, repito, essa mentalidade em Portugal e não sei onde é que essa “sementeira” vai crescer.

As consequências no PS podem ser interessantes. Vou analisar isso com mais pormenor na última reflexão que fizer destas eleições Presidenciais mas posso adiantar, desde já, que a ala mais à esquerda do PS está a ficar impaciente com a governação.

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13 Comments:

  • At 5:58 da tarde, Blogger Vítor Sousa said…

    Meu caro amigo Ricardo, agradeço-te pela distinçao. Todavia, ha um odor a ilusao, que impregna o ar quando se enfatiza a petiçao e o seu relevo. Nao considero a petiçao um contributo mais proficuo do que aqueles que, quuase quotidianamente, projecto. As minhas meditaçoes, recorrentes, sobre a "res publica sao, no minimo, tao antigas quanto o meu acoito virtual. A diferença entre a petiçao e os textos avulsos, hoje presas do voraz esquecimento, radica, somente, nas suas repercussoes. Confirma-se, assim, que um fosforo no breu pode provocar um fenomeno luminoso capaz de rivalizar com Paris, a noite. Mas depois das consequencias imediatas, convém atentar na durabilidade dos efeitos. Nao sei como agirao os subscritores da petiçao e apoiantes de Alegre nesta odisseia. Sei, contudo, como actuarei. Na luta pela depuraçao da cidadania, nao sao exigiveis lideres. Cada cidado é, ou deve ser, arauto de si mesmo. Como pudeste ler, no meu ultimo texto, elegi Alegre como figura capaz de personificar esta causa. Morto o sonho imediato, Alegre sera creio, mais um combatente, sendo um erro perigoso ungi-lo como guia de um rebanho dissidente. A luta pela purificaçao democratica pode ser fomentada dentro e fora dos claustros partidarios, sem auras taumaturgicas. Alegre, como homem sagaz - e depois de ter alertado para o messianismo espurio que envolvia Cavaco - rechaçara os galanteios deste estatuto que sobre ele, neste momento, paira.
    Até que um proximo combate exija uma face concreta, o rosto de Alegre, enrtre os militantes da cidania enéergica e altruista, distingue-se pela sua notoriedade. Nada mais. Tal como eu, depois de beijado pelos viperinos holofotes da visibilidade publica, regresso a placidez opaca onde a face sao letras.
    Obrigado pela tua amizade. Envio-te um grande abraço, cuja calidez se tonifica ao sobrevoar a algidez dos Alpes.

     
  • At 6:05 da tarde, Blogger polittikus said…

    Caro Ricard, não de facto linear que M. Alegre ganharía se Soares não se candidatasse, mas as hipóteses seriam possívelmente maiores, já que houve muitos socialistas, que não gostando de Alegre, odeiam Soares. E vice-versa. Em relaçaõ ao movimento civico do Cidadão M. Alegre de facto é quase impossível tornar-se a repetir. Pois existirá sempre uma máquina partidária dos principais candidatos...

     
  • At 8:11 da tarde, Blogger H. Sousa said…

    Pois permito-me discordar do amigo polittikus, creio que o movimento dos cidadãos anónimos, com o exemplo que agora deu, despertará de novo assim que veja a Pátria em risco. E é disso que devem ter consciência os que governam. Que há cidadãos que não lhes vão permitir tudo o que quiserem, mesmo não estando, aliás, por não estarem controlados pelos partidos.

     
  • At 8:37 da tarde, Blogger pedro oliveira said…

    A candidatura de Alegre não foi a-partidária nem supra-partidária.
    Foi a candidatura dum político não convencional [Alegre ao contrário de outros pensa pela sua (dele) cabeça].
    "Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".
    Esta candidatura foi uma pedrada nas águas paradas (no pântano).
    Julgo que as coisas não voltarão a ser como eram... cada um dos eleitores de Alegre terá agora a noção que o importante são as pessoas, não os partidos.

     
  • At 11:45 da tarde, Blogger rafapaim said…

    O Manuel Alegre conquistou com a sua candidatura "poetica" do homem sozinho que enfrenta tudo e todos... "ventos e mares"... apoiado pela esquerda o resultado tinha sido bem pior (foi a nao identificaçao com a esquerda no poder que o fez ganhar eleitorado)!
    Talvez tenha sido a hora errada (ou o candidato da direita errado) para a candidatura... nem o afirmar como toda a esquerda que estava ali para derrotar o Cavaco. Queremos candidaturas com objectivo diferente ao de impedir uma vitoria à primeira!

     
  • At 1:34 da manhã, Blogger casimiro said…

    Sou admirador de Alegre de longa data. No entanto, confesso que esta caminhada presidencial foi a meu ver decepcionante. Primeiro, Alegre foi vitima das suas indecisões sucessivas quanto a uma candidatura, "vendo" Soares passar-lhe à frente, em parte por culpa de tais indecisões. Depois, toda a candidatura está acente numa falácia: de que esta era um movimento de cidadãos livres e independentes. Boa parte dos apoiantes poderá de facto ser livre e independente de partidos. No entanto, Alegre, tem 30 anos de Partido Socialista. Pelo que a sua independência dos partidos que repetidamente proclamou, não é real. Deveria ter, tal como Zenha fez no seu tempo, abdicado temporariamente dos cargos que detinha. Não o fez. Não votou o OE, quando deveria enquanto deputado tê lo feito. Teve um discurso contra os partidos, discurso que lhe assenta mal em virtude de ele próprio pertencer a um aparelho partidário.

    Assim, achei a sua campanha presidencial decepcionante.

    Admiro a coragem de Alegre em assumir no passado posições difíceis no seio do PS. Admiro o facto de ter um discurso abertamente de esquerda num partido que o deveria ser mas que às vezes não o é.

     
  • At 6:21 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Vítor,

    Acedo que a tua contribuição para a cidadania e outras causas é contínua e não deve ser resumida numa acção. Mas há acções que, por falta de palavras melhores, são "um fosforo no breu pode provocar um fenomeno luminoso capaz de rivalizar com Paris, a noite"!

    Quanto às consequências de tais acções, a prazo, são de efeito duvidoso. Afirmo isto porque cada cidadão raramente é "arauto de si mesmo"! Os tempos são outros, o imediatismo é a regra e não a excepção. Quem sabe, se a situação, parecida com um lago de águas paradas, não se torna fétida o suficiente para despertar consciências.

    Mas sei que a ti não te prendem as correntes do facilitismo.

    Abraço,

     
  • At 6:25 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Polittikus,

    Como disse não embarco nas teorias de que o resultado podia ter sido diferente se Alegre contasse com o apoio oficial do PS. Ou melhor, dito de outra forma, se Manuel Alegre não tivesse concorrido e Mário Soares fosse o único candidato daquela área é impossível prever se o seu resultado seria pior do que o de Manuel Alegre apoiado pelo PS.

    Não considero que o movimento cívico de Manuel Alegre seja irrepetível. Digo é que não há hábitos de cidadania em Portugal. Mas a "ocasião faz o ladrão"!

    Abraço,

     
  • At 6:28 da manhã, Blogger Ricardo said…

    TNT,

    "Que há cidadãos que não lhes vão permitir tudo o que quiserem, mesmo não estando, aliás, por não estarem controlados pelos partidos."

    Há cidadãos assim, de facto! Mas os nossos movimentos cívicos são ainda, por demais embrionários e de conjunturas. Precisamos de alguma regularidade nessas acções, inclusive fora dos actos eleitorais (e não falo em referendos)!

    Abraço,

     
  • At 6:32 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Pedro,

    Eu fiz questão de separar o homem do movimento. Não há homens providenciais e Alegre foi a oportunidade certa, no momento certo, de muitos exteriorizarem um certo desencanto. Acima de tudo foi a ocasião para dizer presente, para dizer que não estão completamente desinteressados do que se passa à nossa volta.

    Mas foi um acto de participação activa dúbia, foi uma manifestação num voto, num único momento no tempo. Precisamos doutros tipos de intervenção cívica, mais duradouros...

    Abraço,

     
  • At 6:34 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Rafapaim,

    A génese da candidatura de Manuel Alegre foi dúbia! Se não tivessem acontecido tantos episódios teatrais no interior do PS talvez a candidatura tivesse outra força. Mas teria sempre que partir do homem e sem o apoio do PS.

    Abraço,

     
  • At 6:38 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Mente Inquieta,

    Também fiquei com a sensação que a candidatura podia ter ido ainda mais longe. Houve tiques de revanchismo, não constantes é certo, que foram prejudicando o que se criou à volta da candidatura. A certa altura fiquei com a sensação que o movimento ultrapassou o homem e que o homem não conseguiu personificar o que se passava à volta. Mesmo assim é de louvar o que aconteceu...

    Os episódios da indefinição inicial, o OE, o Cunhal, as sondagens, o Louçã prejudicaram claramente a campanha!

    Quanto à ala esquerda do PS, quer Sócrates queira quer não, fica fortalecida com esta candidatura.

     
  • At 7:42 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    O AMIGO DO AMIGO DA ONÇA...

    Obrigado por meter abandonado! Felizmente ainda estou vivo!

     

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