Filho do 25 de Abril

A montanha pariu um rato - A coerência colocada à prova - A execução de Saddam Hussein - O Nosso Fado - "Dois perigos ameaçam incessantemente o mundo: a desordem e a ordem" Paul Valéry, "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa, salvar a humanidade", Almada Negreiros - "A mim já não me resta a menor esperança... tudo se move ao compasso do que encerra a pança...", Frida Kahlo

domingo, dezembro 05, 2004

(254) Páginas Soltas (6): Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell



“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”

O mote está dado! Esta sátira política, a última obra de Orwell, é um aviso, um aviso sempre actual sobre os perigos do totalitarismo. Encaixa que nem uma luva a qualquer período histórico e é uma obra mordaz e cínica. Não há concessões ao politicamente correcto nem à estética, não vá a Polícia do Pensamento pensar que o autor cedeu à esperança.

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”

Orwell constroi uma sociedade que parece ser um perigo real, que não é nem improvável nem distante. O Grande Irmão está sempre vigilante. O regime tem vários Ministérios (curioso que o da Paz ocupa-se da guerra, o do Amor da lei e ordem e e da Verdade controla as notícias) que cerceam as liberdades individuais em nome da primeira forma de totalitarismo eficaz!

“A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Uma vez que se reconheça isto, tudo o mais virá por acréscimo.”

O melhor deste livro é a deliciosa elaboração de pensamentos e relações que são confrontados de forma cruel pelo regime instalado. Não há medo de arriscar neste livro e isso é feito duma forma cerebral. Não se percebe logo o porquê de tão exaustivas descrições do regime e dos sentimentos das personagens mas tudo vai ganhando forma à medida que o livro caminha para o fim. O último capítulo é de tal forma tenso psicologicamente que tenho dificuldade em encontrar, nos livros que já li, tal habilidade na descrição da mente (talvez só no “Processo”, de Kafka e no “Crime e Castigo”, do Dostoiévski).

Há um certo fatalismo neste livro, há um ponto sem retorno! Por isso é preciso combater com convicção todos aqueles que caminham nessa direcção!

7 Comments:

  • At 1:05 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Excelente obra em que me deliciei com a sua leitura, mas que nos leva a reflectir.. e se o mundo fosse assim!..Arte por um Canudo.

     
  • At 5:06 da tarde, Blogger polittikus said…

    Já li esta obra há algum tempo... è uma questão bem colocada, e se o mundo fosse assim????

     
  • At 8:08 da tarde, Blogger Ricardo said…

    “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”

    E se o mundo fosse assim? Viveríamos em guerra, em escravidão e em ignorância. Podíamos tentar ter paz, liberdade e força apenas para rendermo-nos às nossas fraquezas!

    O truque é lutarmos para que o mundo nunca seja assim!

     
  • At 5:08 da tarde, Blogger O Raio said…

    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

     
  • At 5:08 da tarde, Blogger O Raio said…

    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

     
  • At 5:15 da tarde, Blogger O Raio said…

    1984 é uma das minhas obras favoritas. Mais, Orwell é um dos meus escritores favoritos.
    Há mesmo uma obra dele, pouco conhecida em Portugal, "Os dias da Birmânia" (creio que é este o nome) que é fundamental para se compreender o Império Britânico.
    Mas voltemos ao 1984.
    Na altura esta obra tinha um defeito, a sociedade que descrevia era tecnicamente impensavel. Ninguém acharia possível estar-se permanentemente a alterar tudo o que estava escrito.
    Mas actualmente com a digitalização e a inteligência artificial já não digo nada...
    Há também outra obra interessante, o Brave New World (O admirável mundo novo) de Aldous Huxley que descreve um futuro aparentemente, só aparentemente oposto. Ambos ditaturiais mas enquanto no 1984 as pessoas são abertamente oprimidas, no Brave New World as pessoas são alegremente oprimidas, sem Grande Irmão nem sequer governo visível. Mas com muito sexo...
    Aldous Huxley escreveu mesmo outra obra, "A volta ao admiravel mundo novo" em que compara o 1984 com o Brave New World concluindo que esta última mostra um futuro mais provavel do que o 1984.
    Francamente discordo. Acho que o tal futuro provavel será uma sintese das duas, sem Grande Irmão mas com muita "democracia" e sexo que baste.
    A Europa actual, dirigida pela União Europeia está a seguir este caminho. Muita "democracia" e pleno direito de discutir amplamente aquilo que o Poder quer.
    Nas franjas desta sociedade "democrática" existem os proles políticos, como eu, por exemplo, que dizem aquilo que nenhum político "decente" diz e que nenhum orgão de comunicação social "decente" transmite.
    Estes proles são deixados em liberdade... a não ser que comecem a ter alguma audiência e a influirem na sociedade. Aí perceberam que a democracia tem limites... mas nunca serão atacados pelas suas ideias... terão problemas com o fisco, terão suspeitas de tráfico de droga, pedofilia, eu sei lá, qualquer coisa que aparentemente não tenha nada a ver com política...

     
  • At 5:43 da tarde, Blogger Ricardo said…

    O regresso do Raio! Concordo com parte da tua análise apesar de achar que, no estilo de escrita, o livro do Orwell é bem melhor, bem mais cerebral e assustador. "O Admirável Mundo Novo" é também um excelente livro mas sem a crueza do 1984. Quanto à UE, que passa tempos difíceis, tem problemas a resolver mas a tendência não acho que seja parecida! Vendo o panorama nacional fico a pensar se aqui não estamos piores!

     

Enviar um comentário

<< Home