Filho do 25 de Abril

A montanha pariu um rato - A coerência colocada à prova - A execução de Saddam Hussein - O Nosso Fado - "Dois perigos ameaçam incessantemente o mundo: a desordem e a ordem" Paul Valéry, "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa, salvar a humanidade", Almada Negreiros - "A mim já não me resta a menor esperança... tudo se move ao compasso do que encerra a pança...", Frida Kahlo

sexta-feira, abril 29, 2005

(401) Desabafo

Não costumo tocar em assuntos do foro pessoal no blogue porque considero que a nossa privacidade deve ser partilhada de forma seleccionada e privada. Mas vou abrir uma execpção a esta regra...

É impressionante a velocidade com que tudo muda! Num Domingo vejo descansado um filme em DVD e deito-me e na manhã seguinte acordo com dores fortes num braço. Um caroço acabava de tocar um nervo e foi o início de um processo desgastante que dura há quase um mês. O desgaste que advém de ser assistido por 5 médicos, por ter feito 2 TAC´s, 2 Raio X, uma ecografia, uma punção, análises ao sangue e urina é gigantesco ao nível psicológico. Principalmente quando os médicos apontam com grande certeza para cancro (linfoma ou outros tipos terminados em oma).

É fácil explicar que, quando um médico nos diz para fazer um TAC ao abdómen para verificar se há mais lesões em algum orgão, o desgaste mental é grande. E passam dias e mais dias e noites e mais noites para marcar o exame, fazer o TAC e conhecer os resultados. Depois é preciso interpretar os resultados. Todo este processo deixa marcas.

Algo que aprendi com esta experiência é que as doenças de foro oncológico atacam a mente de forma tão agressiva como o corpo. O medo paralisa e não nos deixa viver mesmo que fisicamente nos sintamos bem. Mesmo após ter-me sido removido cirurgicamente o caroço (apelidado nesta fase de gânglio) não sentia dores e estava em plena forma física. Mas qualquer dor nova ou antiga era como um novo alarme e começava a comportar-me como um doente. Estava tranquilo e preparado para os choques que se iam sucedendo a um ritmo diário mas não queria sentir-me doente, leia-se, podia estar doente mas não queria limitar mais a minha vida do que era necessário. Mas limitei-a ao máximo...

Quem nos rodeia raramente apercebe-se que o "doente" não quer ser tratado como um doente. Quem está debilitado fisica ou psicologicamente não quer olhares chorosos, comportamentos frenéticos nem sentimentos de pena. O que eu queria era sentir um ambiente de normalidade para que a doença não ocupasse toda a minha vida. Eu queria falar sobre cinema ou sobre a quantidade absurda de dinheiro que o Mourinho ganha. Eu só queria que os comportamentos fossem os normais porque, no fundo, eu ainda era a mesma pessoa...

Na sociedade que criámos só interessa o presente! O passado é rapidamente esquecido e o futuro relativizado e sempre distante. O homem prefere ignorar que, no limite, morre e que isso é tão natural como nascer. Mas não, nós preferimos nos sentir imortais e não lidar, leia-se ignorar, com a morte. Só assim se compreende porque é que a morte é escondida debaixo dum lençol, porque é que vivemos obcecados com a eterna juventude e porque é que preferimos sentir pena de quem sujeita-se a tratamentos como a quimioterapia do que aceitá-la como uma luta pela sobrevivência, ou seja, como algo natural. Por isso o cancro é um estigma e faz com que quem tem um sinta embaraço, que se feche em casa com vergonha. A nossa sociedade é um dos factores do insucesso da cura do cancro.

Este é o resultado da sociedade materialista que estamos a construír. A "fé" deste novo milénio peca da mesma forma que as religiões seculares que antecederam esta forma de pensar. As religiões preferem alimentar a incerteza sobre o que é a morte que enfrentá-la como algo definitivo e natural e esta nova "fé" materialista prefere simplesmente ignorar que a morte existe. A morte, nas sociedades ocidentais, é algo distante e fruto dum acaso ou azar e é encarada no conforto duma esperança média de vida que cresce todos os dias na mente das pessoas (e que de média tem muito pouco). Não tenho pressa de morrer e sempre terei medo de morrer mas só aceitando este destino com realismo (como algo inevitável e natural) é que posso (tranquilamente) impedir que o medo paralise a minha vida e que a limite a um acto contínuo de respiração. Todos respiramos, poucos vivem!

Neste momento sinto um alívio condicionado! Contra as fortes expectativas médicas afinal não tinha nem um tumor nem cancro. Provavelmente apenas um processo reactivo a algo como um vírus ou um insecto, que vou ter que controlar atentamente. Mas não critíco os (excelentes) profissionais de saúde que me acompanharam excepto no excesso de zelo ao tentarem acelerar a cura. Não preciso explicar o alívio de ter reconquistado um horizonte de vida mas este vai ser sempre condicionado. Para já porque ainda não sei o que provocou o que tive (e pode sempre reaparecer da mesma forma que chegou, sem avisar) mas principalmente porque agora sei que tudo pode mudar de um dia para outro. Hoje sou uma pessoa diferente porque nunca mais vou sentir aquela felicidade ingénua dos tolos que preferem ignorar o que se passa à sua volta! Mas sinto-me mais vivo que nunca... e a descobrir os incontáveis prazeres da alimentação saudável!

Agradeço a todos os que deixaram aqui mensagens de apoio! Sem excepção foram importantes para mim. Em breve, após mais uma curta descompressão, retomo o meu olhar sobre o mundo da única forma que o sei fazer, leia-se, impessoal e fria (como habitual). Este post foi a excepção, não a regra. Também vou retomar as visitas aos blogues que tenho nas minhas ligações porque já sinto saudades da blogosfera e dos blogamigos! Até breve!

21 Comments:

  • At 4:52 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Um beijo.

    F / X

     
  • At 5:00 da tarde, Blogger Professor Doutor said…

    Caro Ricardo,

    Folgo em saber que tudo não passou de um susto, e bem-vindo de volta a esta coisa a que chamam blogosfera (termo que odeio por implicar clausura, quando o ciberespaço é exactamente o oposto... mas isso fica para uma próxima).

    Optimista inveterado como sou, convido-o a olhar para a sua experiência como uma dádiva (sem nenhuma conotação religiosa), uma oportunidade para aprender e amadurecer com mais uma lição da vida. E que melhor lição de vida, que esta que nos obriga a olhá-la como se pelos olhos de outros se tratasse, vê-la como coisa fugaz e frágil que é, a pô-la em perspectiva e quiçá a realinhar prioridades para o que dela resta? Aproveite! E agradeça o facto de agora saber o que sentem outros menos afortunados, para os quais foi mais que um susto...

    Um forte abraço virtual!

     
  • At 6:04 da tarde, Blogger Armando S. Sousa said…

    Certamente foram momentos muito difíceis e com uma extrema ansiedade. Felizmente que o pior cenário está afastado no entanto penso, e sempre pensei, que a vida é uma dávida que nós devemos saber viver, usufruir e gozar todos os dias da nossa vida.
    Como diz o poeta, o amanhã é sempre longe demais.
    Benvindo e tudo do melhor na tua vida.

    Um abraço.

     
  • At 10:11 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Nem sei que te dizer... apanhaste-me desprevenido com esta situação... mas felizmente, pelo que contas, não passou de um grande susto! Sê bem vindo.

     
  • At 11:20 da tarde, Blogger Ruvasa said…

    Viva, Ricardo!

    Só tenho duas coisas para te dizer e ambas muito simples:

    Recebe um grande, grande abraço!

    Estás aqui e estás para continuar. É quanto interessa. Tudo o mais não conta, não deve contar, não contará.

    Teu amigo

    Ruben

     
  • At 10:20 da manhã, Blogger pindérico said…

    Caro Ricardo
    Tenho uma ideia muito precisa do que passaste; também vivi algo muito parecido.
    Sei que deves estar, neste momento, a reequacionar quase tudo na tua vida, com uma sensação de grande alegria por estares livre do pesadelo, misturada com uma indescritível angústia por teres sido confrontado com uma vulnerabilidade que nunca tinhas imaginado em ti.
    Neste momento pensas decerto que a tua vida nunca mais vai ser a mesma; vais passar a olhar as coisas de outra forma! Mas verás que a curto prazo estarás de novo igual a ti mesmo, em todas as dimensões.
    Um grande abraço

     
  • At 4:40 da tarde, Blogger Pedro F. Ferreira said…

    Um grande, grande,abraço... meu amigo!

     
  • At 6:08 da manhã, Blogger rafapaim said…

    Tudo esta bem.. quando acaba bem... filosifa barata eu sei... mas quem melhor que eu para acreditar nisso! Um grande abraço!

     
  • At 2:43 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Acima de tudo está o nosso bem estar.Temos que encarar as coisas tal como elas são e não olhar para trás.O que interessa é o momento e tu tens que continuar aqui nos blogues com as tuas criticas como tu sabes muito bem fazer.Vai em frente e luta.Todos temos uma luta uns mais que outros, temos é que saber jogar para a vencer.Um grande abraço.Arte por um canudo 2

     
  • At 1:16 da tarde, Blogger David said…

    Bem vindo

     
  • At 6:28 da tarde, Anonymous C.Indico said…

    Estou comovido com a sua confissão.
    A peesoas como eu,que evito até ver o sofrimento, e estive na guerra e sofri,a sua confissão ajuda muito !

     
  • At 6:47 da tarde, Anonymous O Velho da Montanha said…

    Caríssimo Ricardo. Fico muito contente e aliviado pelo facto das coisas estarem sob controlo e que você esteja de novo de volta ao nosso saudável convívio.
    Agora, meu caro, não confunda a "fé" materialista com a "fé" religiosa, já que se tratam de fenómenos distintissímos, coisa que poderemos discutir profícuamente de futuro, se você assim o entender.
    Um abraço.

     
  • At 9:16 da tarde, Blogger Frederico said…

    Cuidado com as palavras acabadas em "oma"!
    Sabe como se chama a uma tesoura esquecida dentro de um corpo durante uma operação?
    Um TESOUROMA!
    E uma compressa?
    Um Compressoma!
    Pura verdade. Um individuo vai ao médico com uma dor nova desde uma operação. O médico analise e encontra através do Raio X uma compressa. Innforma o utente de que este tem um compressoma! Uma situação que pode acontecer em pós operatório. E o paciente fica feliz porque descobre que apesar de ter que ser novamente operado o médido dá 99% de garantia de correr tudo bem...
    :-)

     
  • At 12:19 da tarde, Blogger Sandro said…

    Ou seja, estiveste doente... estas melhor, certo?
    Então ataca em força que ando com vontade de te "ler".
    Entretanto um abraço, e força, que a vida são dois dias, mas temos de ser teimosos o suficiente para conseguir estendê-la a pelo menos mais uns anos. :-)

     
  • At 4:45 da tarde, Blogger O Raio said…

    Fico satisfeito por já estares de volta ou quase e por tudo, aparentemente, não ter passado de um susto.
    Acho que o cancro como qualquer outra doença não tem nada de degradante, como li uma vez “a vida é uma doença incurável que leva inoxeravelmente à morte”.
    Mas vivemos numa sociedade de terror, é o cancro, é a SIDA, é a pedofilia, são as febres hemorrágicas, é a criminalidade, é o terrorismo, é, é,… é sei lá o quê, qualquer susto que dê para vender jornais e aumentar o share da TV é bem vindo.
    Por exemplo, agora existe (existe mesmo?) a SIDA, doença mortal que se transmite, entre outras formas, pelos contactos sexuais.
    Mas eu não conheço ninguém com SIDA nem conheço ninguém que conheça alguém com SIDA. O que não impede que a SIDA seja considerada um flagelo que está sempre à espeita.
    Quando era novo não havia SIDA. Mas havia outras doenças, transmisíveis sexualmente, sífilis, blenorragias, etc., Mais, conhecia várias vitimas que tinham apanhado estas doenças. Um vizinho meu até enlouqueceu e teve de ser internado por causa da sífilis.
    Tudo me leva a concluir que as doenças venéreas de antanho estavam mais disseminadas e eram mais perniciosas do que a SIDA. No entanto nunca vi ninguém pensar duas vezes em ir para a cama com uma pequena por causa desses flagelos. Além de que os telejornais da altura (isto é, o telejornal) não abria com a notícia de que a juventude portuguesa não se protegia da sífilis…
    E, é aqui que quero chegar, a Comunicação Social transmite-nos um ideal de vida, forte, atlético saudável e sem doenças, ideal a que todos temos o dever de aspirar. Quem não chega lá é um incapaz.
    E, depois, passa o tempo a transmitir notícias de que este ideal é inantigível ou por contágio com os outros, ou por azar, ou por termos sido abusados quando miudos, ou por sei lá que mais.
    Assim, não ligues aos outros, tudo é grave e nada é grave. Tenho um familiar que teve um cancro aos cinquenta e tal anos e agora, aos 87, tem saúde para dar e vender.
    Termino como comecei. Fico satisfeito por tudo não ter passado de um susto. Volta depressa, fazes cá falta.

     
  • At 4:49 da tarde, Blogger O Homem das Ilhas said…

    Ainda bem que estás de regresso depois de um período difícil ...
    Agora cá espero as tuas opiniões ... no meu e no teu Blog ...

    Camarada ...
    Continua ...
    O que não nos destrói, só nos fortalece ...
    Prá frente é que é o caminho ...

     
  • At 10:27 da manhã, Blogger gonn1000 said…

    Ainda bem que já tudo voltou a recompor-se, ainda que com mudanças determinantes. Bem-vindo de volta ;)

     
  • At 7:03 da tarde, Blogger dinah said…

    Quando se passa por um coisa como essas, brutal, tem todo o direito a ser emocional. Benvindo de volta.

     
  • At 7:23 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Ainda bem que tudo não passou de um susto e que estás de volta, vivo como nunca, mas sempre atento ao nosso bem mais precioso: a SAÚDE! Desejo-te rápidas melhoras, a nível psicológico e físico. :)

    Abraços. ;)

    P.S: Fui eu que deixei o último comentário no teu outro post, no qual anunciaste a tua ausência. :)

     
  • At 7:24 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Mais uma vez esqueci-me de assinar. O último comentário foi escrito por TIAGO TEIXEIRA.

     
  • At 5:39 da tarde, Blogger Roberto Iza Valdes said…

    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

     

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