Filho do 25 de Abril

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terça-feira, agosto 30, 2005

542. A Mensagem do Socialismo, segundo George Orwell (4)




“Voltando a mim próprio mais uma vez, aqui estou eu, com as minhas origens de classe média e o meu rendimento de cerca de três libras por semana, por junto. Bem vistas as coisas, mais me vale estar do lado socialista do que transformar-me num fascista. Mas se continuam a atirar-me constantemente à cara a minha ‘ideologia burguesa’, se me dão insidiosamente a entender que, de certo modo, sou uma pessoa inferior porque nunca trabalhei com as mãos, só conseguirão criar antagonismos comigo. Porque o que estão a dizer-me é que sou um completo inútil ou que devia modificar-me de uma maneira que não está ao meu alcance. Não posso proletarizar a minha pronúncia ou certos gostos e convicções que tenho – e não o faria, se pudesse. Em nome de quê? Não peço a ninguém que fale como eu; por que razão me hão-de exigir o contrário? Seria muito melhor aceitar esses insignificantes tiques de classe e valorizá-los o menos possível. São comparáveis a uma diferença de raça, e a experiência demonstra que se pode cooperar com estranhos, mesmo com estranhos que nos desagradam, quando isso for de facto necessário. Sob o ponto de vista económico, estou no mesmo barco que o mineiro, o cavador e o trabalhador rural; se me chamarem a atenção para isso, lutarei a seu lado. Mas, sob o ponto de vista cultural, sou diferente do mineiro, do cavador e do trabalhador rural; acentuem isto e poderão armar-me contra eles. Se eu fosse uma anomalia solitária, isso não teria importância, mas o que se aplica a mim aplica-se a muitíssimos outros. Qualquer empregado bancário ameaçado de despedimento, qualquer lojista á beira da falência, está essencialmente na mesma posição. Fazem parte dos sectores da classe média que se afundam, e a maior parte apega-se à sua linhagem de origem, convencidos de que isso os ajuda a manter-se à tona. Não é boa política começar por lhes recomendar que deitem fora o colete de salvação. Existe o perigo bastante óbvio de, nos próximos anos, amplos sectores da classe média darem uma guinada súbita e violenta para a direita. Quando o fizerem, podem adquirir uma força formidável. Até agora, a fraqueza da classe média devia-se ao facto de nunca ter aprendido a unir-se; mas se a assustarmos ao ponto de se unir contra nós, podemos concluir que pusemos o diabo à solta. A greve geral deixa-nos entrever num breve relance essa possibilidade.

Em resumo: só há hipóteses de endireitar as condições que descrevi nos primeiros capítulos deste livro, ou de salvar a Inglaterra do fascismo, se criarmos um partido socialista eficaz. Terá de ser um partido com intenções genuinamente revolucionárias e terá de ser suficientemente forte, do ponto de vista numérico, para actuar. Só podemos criá-lo se propusermos um objectivo que as pessoas mais comuns reconheçam como desejável. Por conseguinte, para lá de tudo o resto, precisamos de propaganda inteligente. Menos sobre ‘consciência de classe’, ‘expropriação dos expropriadores’, ‘ideologia burguesa’ e ‘solidariedade proletária’, já para não falar da santíssima trindade – tese, antítese e síntese; e mais sobre justiça, liberdade e as dificuldades dos desempregados. E menos sobre progresso mecânico, tractores, a barragem do Dnieper e a mais recente fábrica de enlatados de salmão de Moscovo; esse tipo de coisas não é parte integrante da doutrina socialista e afasta muitas pessoas necessárias à causa socialista, incluindo quase todos os que sabem escrever. Só é preciso fazer compreender á consciência pública duas coisas: uma, que os interesses de todos os explorados são os mesmos; outra, que o socialismo é compatível com a mais vulgar decência.

Quanto à questão das diferenças de classe, terrivelmente difícil, a única política possível, de momento, é ter calma e não afastar mais gente do que o necessário. E sobretudo, acabar com esses esforços de sacristão brutamontes para acabar com a divisão de classes. Se pertencer à burguesia, não tenha pressa de se atirar para a frente a abraçar os seus irmãos proletários; eles podem não gostar, e, se o manifestarem, o mais certo é você descobrir que os seus próprios preconceitos de classe não estão tão mortos como imaginava. E se pertence ao proletariado, por nascimento ou aos olhos de Deus, evite troçar mecanicamente da velha gravata com o emblema da escola; ela dissimula lealdades que lhe podem ser úteis, se souber explorá-las.

Apesar de tudo, creio que há esperança de que, quando o socialismo se tornar uma coisa viva, uma coisa capaz de interessar de facto a grande número de compatriotas, o empecilho das classes possa resolver-se mais depressa do que parece hoje imaginável. Nos próximos anos, conseguiremos esse partido socialista eficaz de que precisamos, ou não. Se não, teremos o fascismo; provavelmente uma forma ligeiramente anglicizada de fascismo, com polícias cultos em vez de gorilas nazis e o leão e o unicórnio em vez da suástica. Mas se o conseguirmos, haverá uma luta, possivelmente física, porque a nossa plutocracia não se deixará ficar quieta sob um governo de facto revolucionário. E quando as classes extremamente separadas que por certo estarão representadas em qualquer partido socialista tiverem lutado lado a lado, poderão considerar-se mutuamente de maneira diferente. Nessa altura, talvez este flagelo do preconceito de classe se atenue e nós, os da classe média que se afunda – o mestre-escola, o jornalista independente quase morto de fome, a filha solteirona do coronel com 75 libras anuais, o desempregado com um ‘canudo’ de Cambridge, o oficial de marinha sem barco, os empregados de escritório, os funcionários públicos, os caixeiros-viajantes e os negociantes de panos três vezes falidos das cidades de província -, talvez possamos mergulhar, sem mais lutas, no seio da classe operária a que pertencemos, e talvez, quando lá chegarmos, não seja tão terrível como temíamos porque, no fim de contas, não temos nada a perder a não ser os nossos h aspirados.”


O Caminho para Wigan Pier – George Orwell

16 Comments:

  • At 3:07 da tarde, Blogger sonhos sonhados said…

    Keridos Amigos

    As férias terminaram...
    ...assim como um muro de areia
    se desfaz... frente a uma onda... mais ousada.

    o tempo passou
    sem horários...
    livre...
    repousante...
    um pouco dorido...
    e
    guloso.

    não foram as melhores férias
    ...pois a saúde falhou um pouco
    e
    não ajudou
    como deveria,
    porém foi tão bom
    estar junto dos meus deuses
    que até o tratamento me pareceu mais leve.

    devo dizer-vos
    que senti saudades
    das palavras
    dos desenhos
    das músicas
    das imagens
    a que todos vocês me habituaram
    (principalmente
    quando era castigada
    pela imobilidade da medicação)
    ...mas...
    para o ano
    levarei comigo um portátil
    que irei ganhar no euro-milhões...
    ... por esse motivo vou desde já começar
    a lançar a sorte
    e escolher os números.

    Keridos
    tudo isto para vos dizer
    que não vos esqueci
    e
    para avisar
    que a partir de hoje
    vou perder
    muitas horas gulosas...
    a “fazer visitas”.

    Beijux létinha.

    Ps. desculpem ter usado a mesma
    mensagem para todos...
    mas não foi possível “personalizar”
    .....................................
    obrigada pelo “perdão”
    .....................................
    sois uns amores.

     
  • At 6:07 da tarde, Blogger mfc said…

    Um muito muito obrigado pelas tuas palavras.
    Toma um abraço sentido.

     
  • At 7:33 da tarde, Anonymous C. Indico said…

    Não consigo imaginar o dilareçeramento intímo que este homem sentia quando pensava assim, pois não acredito que tenha sido um embusteiro.
    A sua moralidade pétrea, não é por acaso que aparece outra vez a ideia de DECÊNCIA-ideia muito anglicana na altura-,impede-o de ser razoável e ver o mundo tal como era(é), assim vislumbrar soluções não catastróficas.
    Também de realçar que inadvertidamente glorifica o Império Britãnico,considerando que um totalitarismo( fascismo)lá, seria suavizado, com policias cultos ( como ele!), o que é absolutamente contraditório....
    Aqui falha redondamente.
    Gostaria de saber em que época da sua vida este livro foi escrito.

     
  • At 10:37 da tarde, Blogger Conchita said…

    estou com uma dor de cabeça de todo o tamanho, mas não podia deixar de passar por aqui só para te mandar um *

     
  • At 11:05 da tarde, Blogger rsd said…

    argumento embrião do socing?

     
  • At 11:26 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Sonhos Sonhados,

    Desculpa a franqueza mas só não estranhei o desabafo do teu estado de espírito formatado a todos os teus "amigos" porque isso começa a ser comum na blogosfera...

    Não sei se te conheço porque nunca visitei o teu blogue, nunca cá comentaste (pelo menos com esse nick)... por isso o texto está algo desenquadrado.

    Se te conheço desculpa lá mas não sou adivinho.

    Eu só pergunto, se por acaso cá voltares, se de facto te conheço...

    De qualquer forma tudo de bom,

     
  • At 11:27 da tarde, Blogger Ricardo said…

    mfc,

    Obrigado! Não disse nada que não achasse...

    Abraço,

     
  • At 11:45 da tarde, Blogger Ricardo said…

    C. Índico,

    Este livro foi escrito em 1937. Passa-se após das experiências de Orwell em "Na Penúria em Paris e Londres", livro que já descrevi aqui no blogue (podes aceder na barra direita em literatura).. .e é anterior às suas obras mais aclamadas (que também já descrevi).

    Orwell, nesta fase, é por convicção socialista. Mas não tem uma visão clubística disso e tenta criticar e estudar os vários pontos de vista.

    Por isso não há branco e preto, há várias tonalidades de cinzento na sua apreciação da sociedade. Ele ataca com violência o Império mas vai dizendo que ninguém o quer perder pois isso permite aos ingleses viverem melhor. Também destaca que, enquanto polícia na Índia, fez coisas de que não se orgulha...

    Por isso não acho que haja contradições mas um desenvolvido sentido crítico que o faz ver várias versões da mesma ideia. Ninguém é dono da verdade nem há verdades absolutas. Quem defender isso não está a ser sério.

    Mas, acima de tudo, era uma pessoa decente!

    Abraço,

     
  • At 11:56 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Conchita,

    As melhoras! Sei que andas cheia de trabalho...

    Um beijo,

     
  • At 12:03 da manhã, Blogger Ricardo said…

    rsd,

    Nesta fase já há um aspecto que Orwell dava muita importãncia, a luta contra o fascismo. O socing estava a nascer... mas mais tarde a luta é contra todos os tipos de totalitarismos...

    Abraço,

     
  • At 12:15 da tarde, Anonymous C. Indico said…

    P.F.:
    "socing"?

     
  • At 12:25 da tarde, Blogger Ricardo said…

    C. Índico,

    O "Socing" refere-se à expressão no livro 1984 que define o partido único que governa esta sociedade, em neolíngua. Curioso serem as iniciais de Socialismo Inglês... ("ingsoc")...

    Abraço,

     
  • At 12:38 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Em vez de neolíngua leia-se novilíngua

     
  • At 3:51 da tarde, Anonymous C. Indico said…

    Robert Kane Pappas.
    "Orwell Rolls In His Bones".

     
  • At 6:41 da tarde, Anonymous C. Indico said…

    Se fosse possível gostaria de voltar ao tema Estado Interventivo/Regulador.Penso que estás a cometer um erro.
    Está a ir para a Esquerda e não para a Direita.

     
  • At 4:51 da tarde, Anonymous C. Indico said…

    Ricardo, "socing":
    Tenho que ir á Clinica da Memória.

     

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