Filho do 25 de Abril

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quinta-feira, março 30, 2006

820. Desertificação versus Eficiência



O encerramento de escolas e maternidades no interior choca qualquer ser humano! É a prova - como se fosse preciso uma - que o país é desigual. O interior do país está numa espécie de lenta agonia num ciclo vicioso de abandono, desinvestimento e desalento.

O anúncio do encerramento destas infraestruturas básicas foi, então, um choque. São inegáveis os ganhos de eficiência nos gastos do Estado com estas medidas mas o aparente agravamento do ciclo vicioso de desertificação parecia que, numa primeira análise, devia sobrepor-se às "meras" questões financeiras.

Mas há um dado que alterou a minha percepção do assunto. Comecei a pensar como será ter aulas numa escola com mais quatro colegas. Será possível, nessas condições, ter acesso a um ensino aceitável e que ofereça o mesmo grau de preparação que uma outra escola com centenas de alunos? E que tipo de partilha de experiências sociais e emotivas pode ter uma criança que só convive com mais quatro (que nem sei se são do mesmo ano)? O mesmo aplica-se às maternidades, ou seja, será possível ter os meios e a experiência necessários para lidar com os problemas complexos do nascimento numa maternidade sem massa crítica de nascimentos? São respostas que deixo a técnicos mas, provavelmente, preferia que o meu filho fosse estudar mais longe, mesmo que haja um transtorno diário, mas que tivesse melhores oportunidades de sucesso. O mesmo raciocínio aplica-se às maternidades. É dramático mas, provavelmente, é a decisão mais lógica a tomar, ou seja, é incontornável o fecho destas infraestruturas.

Para finalizar faço uma pergunta da mesma classe daquela que indaga se foi a galinha ou o ovo que nasceu primeiro, ou seja, será que é o desinvestimento que leva à desertificação ou será a desertificação a causa do desinvestimento?

Foto retirada desta ligação: http://galerias.escritacomluz.com/jbarata/album05/aaa

11 Comments:

  • At 8:02 da tarde, Blogger Fernando said…

    O governo refugia-se e argumenta com os múltiplos pareceres e relatórios, como tudo se pudesse reduzir a uma questão de natureza exclusivamente técnica, insensível ao contexto local, à dimensão social, humana e tantas vezes dramática da prestação de cuidados de saúde e à necessidade de assegurar equilíbrio e solidariedade entre as regiões no acesso aos serviços públicos de saúde.
    Hoje é a maternidade que fecha, amanhã é o centro de saúde, mas entretanto o mesmo governo e a mesma política já acabaram com o posto de correios, a estação de comboios, a escola e o tribunal, deixando as populações entregues a si próprias. O Estado está em debandada.

    Esta política contribui para a desertificação do interior e o esvaziamento das zonas menos desenvolvidas, dificulta a fixação nessas regiões e acentua as conhecidas assimetrias de desenvolvimento do país.

    O encerramento imediato de quatro maternidades e de mais cinco até ao final do ano – e a ameaça sobre outras cinco, com base em critérios e exigências que o governo não pretende fazer aplicar aos partos realizados em clínicas privadas, traduz a incapacidade do governo de encontrar outras soluções que não penalizem tão pesadamente as populações atingidas, nomeadamente, a definição de outros circuitos de referenciação das grávidas e parturientes, a mobilização de profissionais de outras unidades, o reforço e modernização tecnológica de alguns serviços

    Anunciou também o governo que está em preparação o encerramento das urgências de cerca de 60 centros de saúde, em grande parte situados em zonas do interior do país, e de reduzir as horas de funcionamento nocturno noutros centros de saúde, medidas que nalguns casos já foram concretizadas, com claro prejuízo para os utentes dessas unidades.
    Só por razões de reduzir custos a qualquer custo, insensível às difíceis condições de vida de muitos portugueses, se pode perceber esta febre de encerramentos quando está em curso uma reorganização dos cuidados primários de saúde, através da criação das Unidades de Saúde Familiar, cujo objectivo número um é precisamente garantir o atendimento médico no próprio dia, resultado absolutamente essencial para pôr de pé um SNS de qualidade e proximidade, orientação – essa sim, que devia presidir às preocupações do governo.
    Mas a palavra de ordem é encerrar, encerrar, encerrar sempre.

    Desculpa lá Ricardo, mas não resisti a pôr aqui uns extractos extensos da intervenção de João Semedo na assembleia da república aquando do interpelação a pedido pelo Bloco sobre a saúde. Intervenção completa aqui: http://www.bloco.org/index.php?article=2630&visual=1&id=24&parent=24&menu=

     
  • At 10:56 da tarde, Blogger Tiago Alves said…

    A questão com que termina é realmente interessante. Creio que foi a desertificação que levou ao desinvestimento. A desertificação existe já há muito (caso português) e nenhuma cidade do interior tem conseguido, mesmo com alguns trunfos (lembro-me da serra a estrela), aproximar-se do padrão litoral.

    Seja como for, escorregando em algumas tendências sociais-democratas, não será melhor fechar escolas e utilizar o dinheiro poupado em programas de transporte ou mesmo acomodação para os alunos afectados?

     
  • At 12:39 da manhã, Blogger H. Sousa said…

    Tenciono ir ao Porto na terça ou quarta-feira próximas. Vítor Sousa vai estar, julgo. Poderíamos nos juntar para parlamentar?

     
  • At 1:37 da manhã, Blogger Out of Time said…

    Proponho reduzir Portugal a uma faixa litoral e todo o resto converter num campo de golfe. Afinal de acordo com os últimos estudos o golfe é a actividade com maior potencial para atrair turismo de qualidade e não precisa de maternidades nem centros de saude. Alem disto poupa-se nas vias de acesso já que o dito golfe é uma actividade de ar livre que promove a caminhada na natureza. Vamos tornar Portugal eficiente!!!!

     
  • At 5:24 da tarde, Blogger polittikus said…

    Que raio de pregunta. Supostamente os governos não deviam investir para evitar a desertificação... pois é. Incompetência. A desertificação, não é causadora de desinvestimento...

     
  • At 7:48 da tarde, Blogger Alien David Sousa said…

    Limito-me a acrescentar isto ao teu texto: E como será, não saber o que é uma escola? Não será melhor conhecer uma que tem apenas 4 alunos a uma que não existe?
    Isto sou só eu...
    Fica bem

     
  • At 10:36 da tarde, Blogger Frederico said…

    Vamos lá baralhar um pouco o assunto:
    Vivi 33 anos em Lisboa. Depois vim viver para uma cidade no Distrito da Guarda.
    Aqui o ensino é melhor que em Lisboa, de acordo com as médias dos exames nacionais. A escola tem 300 alunos.
    Mas no que toca à Saúde, e apesar do indice de médicos por utente estar nos melhores niveis (6 médicos para 3000 utentes) o serviço é MAU.

    Como explicar?!

    Tal como critiquei os cortes cegos no orçamento geral do estado no tempo da Dra. Manuela Ferreira Leite, julgo que temos aqui o mesmo problema.

    E existe uma informação que todos sabemos: O estado está carregado de estruturas que funcionam mal e que assaltam o referido OGE...

     
  • At 11:32 da tarde, Blogger Rui Martins said…

    eis como a "economia do lucro" se impõe de novo sobre a "economia do Homem".

    O economicismo que substitui as utopias do século xix e impõe o seu "pensamento único", que tolera apenas falas e ténues variantes, como a que separa ps de psd ou republicanos de democratas.

    o resto são "párias" ou "esquerda folclírica" ou "utopistas".

     
  • At 3:21 da manhã, Anonymous NETWALKER said…

    Deviam fechar o País. Assim havia desertificação de uma só vez!
    Iamos todos para Espanha, ou para o Canadá....

     
  • At 3:47 da tarde, Blogger H. Sousa said…

    Numa das minhas saídas por esse Portugal fora, passei por Reguengos de Monsarraz, onde almocei chocos com tinta. Com tanta pouca sorte que, ao trinchar, a tinta sujou-me a camisa. Como não tinha outra para mudar, fui a uma loja da vila comprar uma polo para desenrascar. A loja estava às moscas, essa e as outras todas, porque abrira, próximo da vila, uma enorme superfície comercial onde todos se iam abastecer de tudo, de nabos a televisões. Fecham as lojas, fecham depois os mercados, os talhos, tudo fecha em catadupa, a vida vai sendo mais e mais difícil nas vilas do país. As pessoas debandam em busca de sobrevivência, por último as superfícies comerciais fecharão também, elas próprias que, ao fim e ao cabo, afugentam as pessoas a quem pretendiam explorar, aliciando com preços sem concorrência.
    Não admira que também as escolas, hospitais e etc., tenham que fechar as portas. O último a sair que apague a luz e venha fazer compras no Colombo, no Coimbra Shopping ou no Porto Shopping. E, não tarda nada, também terá que emigrar, porque em Portugal tudo fechará por causa de Belmiros e companhia.

     
  • At 11:57 da tarde, Blogger zoltrix said…

    fechar escolas e centros de saúde e maternidades e....
    Como se fecha uma política neoliberal/fascista?
    Como explicar a quatro garotos que agora têm que ir para a escola às seis da manhã para andarem a dormir em autocarros (?) 4 e 5 e 6 horas por dia?
    Como explicar àquela mulher que o filho nasceu no táxi, ou no carro, e que a "coisa" correu mal?
    Como explicar que tudo isto acontece por se ter eleito esta gente(?) que governa mas que a ideia era fazerem precisamente o contrário?

     

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