Filho do 25 de Abril

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sexta-feira, janeiro 06, 2006

697. Os Centros de Decisão



Já sei que vou provocar a cólera dos liberais e, ao mesmo tempo, dos socialistas mas a minha opinião não tem obrigatoriamente que caber em nenhuma ideologia.

O caso EDP/Iberdrola, a "dança" de administradores nas empresas privadas com "dedo público" e os recentes anúncios sobre os investimentos prioritários em infraestruturas públicas são o contexto ideal para discutir o sector empresarial em Portugal. Vou fazer umas pequenas considerações sobre o assunto:

1. Há quem critique a "fuga" dos centros de decisão de Portugal e exija uma constante intervenção estatal para evitar essa "fuga"! Sabendo que o nosso sector privado não tem capacidade para "segurar" o capital dessas empresas em Portugal mais não estão a pedir que uma re-nacionalização das empresas. Se assim é porque é que privatizamos as empresas das quais não queremos perder os centros de decisão? Ou o capital vai passar a ser bom ou mau conforme a sua nacionalidade?

2. Qual é a lógica das golden shares? Pretende-se, novamente, manter em Portugal os centros de decisão mas esquecemos que a empresa já não é pública. Se a opção foi privatizar qual é a lógica de proteger com unhas e dentes a empresa de capitais estrangeiros? Quem disse que os empresários portugueses vão fazer algo de diferente em relação aos estrangeiros? Afinal não é a obtenção de lucro o objectivo universal do investidor privado, nacional ou estrangeiro?

3. Andamos com um fervor patriótico e a falar em sectores estratégicos. Só falta introduzir o conceito de segurança nacional. Eu sugiro que se avalie quais são os tais sectores estratégicos e não se privatize as empresas desse sector e as que já estão nas mãos de privados que se faça uma nacionalização. Sempre é mais coerente do que receber as receitas da privatização e querer mandar nas empresas na mesma.

4. Se o Governo quer obrigar as empresas privadas com "dedo público" a financiar e explorar os seus projectos de investimento (OTA, TGV) então, novamente, pergunto para que é que privatizou as empresas? E, já agora, qual é a lógica de mesmo as empresas públicas serem obrigadas a entrar neste negócios?

5. Porque é que sempre que vendemos uma fatia das nossas empresas ao capital estrangeiro obrigamos, mais cedo ou mais tarde, esses investidores a vender ou a não decidir sobre nada e, ao mesmo tempo, obrigamos as nossas empresas públicas ou as privadas com "dedo público" a comprarem a quota que "fugiu" para o exterior?

6. Porque é que os administradores de empresas privadas são nomeados pelo Governo e têm que concordar com todas estas operações que raramente dão lucro?

7. Porque é que o Presidente da República tem que interferir nas decisões dos investidores privados em empresas privadas?

E agora a pergunta dourada: afinal para que é que privatizamos as nossas empresas?

11 Comments:

  • At 2:32 da manhã, Blogger Bruno Gonçalves said…

    Porque o Estado é por natureza um mau investidor.

    Amanhã, faço um comentário à restante parte do post.

    Abraço

     
  • At 2:40 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Bruno,

    Fico a aguardar ;)!

    Mas, em jeito de resumo, defendo que ou estamos dispostos a perder os tais centros de decisão e o Estado deixa de fazer todos estes negócios que só prejudicam os privados e as empresas ou estaríamos bem melhor com as empresas nacionalizadas! Este meio termo é que está a matar o nosso já débil sector empresarial (aquele que foi privatizado)!

    Abraço,

     
  • At 10:17 da manhã, Blogger H. Sousa said…

    Concordo em absoluto. Essa promiscuidade estado-privado, como eu lhe chamo, devia acabar. Eu só vejo uma explicação: corrupção! Os governantes que vendem, sabendo que se trata de sector estratégico porque o dedo do estado lá fica, recebem luvas e cachecóis. É a única explicação que encontro.

     
  • At 11:52 da manhã, Blogger Bruno Gonçalves said…

    Ricardo,

    Estava a escrever o comentário mas reparei que estava um pouco extenso. Assim achei melhor fazer um post sobre o tema, de modo a organizar melhor as ideias.

    Abraço

     
  • At 1:28 da tarde, Blogger polittikus said…

    Creio q já comentei este assunto no blog do Macaco Adriano. Primeiro não percebo o motivo da Iberdrola não querer lugar na administração da Galp, quando tem direito a ele. Em troca quer contrapartidas na EDP. Segundo o presidente da Republica não pode, nem deve mandar fazer inquéritos sobre empresas privadas ou semi-privadas é inconstitucional...
    O Jorge S. borrou as botas...

     
  • At 3:16 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Se neste momento aqui na zona raiana já há gente com propostas da SODESA para se mudar, a partir de Setembro deste ano, para a concorrente energética do outro lado da fronteira com tarifas bem mais aliciantes para o bolso português. Quero lá saber que a Iberdrola ou outra qualquer tome conta da EDP?!!!

     
  • At 9:46 da tarde, Blogger Ricardo said…

    TNT,

    Estamos de acordo! Pior que as empresas serem públicas ou privadas é esta promíscuidade. Relembro que para obter receitas orçamentais o Estado não se importou de vender as suas empresas, mesmo aquelas que teoricamente nunca podem falir mesmo que não obtenham lucros, mas quer as receitas e quer manter na mesma a influência. Isto parece-me uma política indefensável...

    Abraço,

     
  • At 9:48 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Polittikus,

    A confusão está instalada. Já nem o PR e os candidatos a PR sabem o que podem e devem fazer!

    Não conheço o blogue do Macaco Adriano mas que isto parece uma macacada lá isso parece...

    Abraço,

     
  • At 9:49 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Micróbio,

    O único ponto no negócio EDP/Iberdrla que me causa alguma preocupação é a limitação da concorrência. Era mais saudável para a economia portuguesa e espanhola se houvesse concorrência e não fusão ou concertação.

    Abraço,

     
  • At 8:29 da manhã, Blogger MigDeF said…

    Concordo com as considerações, mas parece-me que chego a uma conclusão algo diferente. Eu acho que temos de estar dispostos a perder os centros de decisão. É por isso que a minha resposta à pergunta dourada é: porque o Estado gere mal.
    "Ou estamos dispostos a perder os tais centros de decisão [...] ou estaríamos bem melhor com as empresas nacionalizadas". Qual é a dúvida?

     
  • At 7:06 da tarde, Blogger Ricardo said…

    MigDef,

    Nem tudo o que escrevi neste texto é para ser levado à letra! Há partes em que a ironia própria de quem vive num mundo empresarial caricato pode distorcer o entendimento da minha opinião!

    Eu não defendi nacionalizações ou privatizações! Apenas digo que mais vale ou privatizar completamente ou nacionalizar do que esta situação actual com o Estado a prejudicar directamente os interesses dos investidores privados e, ao mesmo tempo, o interesse dos cidadãos!

    Abraço,

     

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