Filho do 25 de Abril

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sexta-feira, janeiro 06, 2006

698. Sala de Cinema: King Kong




Realizador: Peter Jackson
Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Jamie Bell, Andy Serkis

Peter Jackson é o realizador que demonstra uma maior capacidade para alterar o período menos bom da indústria cinematográfica. Pode parecer irónico fazer esta afirmação por causa de um “remake” mas o importante não é descobrir a roda mas sim ser capaz de fazer cinema com simplicidade e alma. E mesmo sem saber se King Kong está ou não a conseguir resultados brilhantes de bilheteira já não consigo deixar de considerar que Peter Jackson é o novo rei dum certo tipo de cinema popular. À semelhança do que George Lucas e Steven Spielberg foram capazes de fazer em tempos o realizador neo zelandês sabe tirar partido do melhor que as novas tecnologias têm para oferecer. E não negligencia a importância da história por mais simples que seja e da transmissão de sentimentos por mais primários que sejam. Por isso King Kong é um bom filme, por isso estamos na presença de bom entretenimento, por isso é que o cinema fantástico volta a dar cartas.




Convém, nesta fase, fazer uma advertência. King Kong é um filme que cabe na categoria do cinema fantástico por isso qualquer semelhança com qualquer situação com o mínimo de realismo é pura coincidência. Mas durante as mais de três horas de filme não há, nem por um momento, uma sensação de descrença em relação às situações inacreditáveis que passam pela tela de cinema. E isso só é possível porque há o cuidado de não tentar iludir o espectador e o filme é apresentado, desde o início, como um conto fantástico. E para isso contribuem os cenários com que o filme nos é apresentado que retratam simultaneamente um período e uma cidade com algum rigor histórico – a acção decorre em Nova Iorque durante a Grande Depressão - mas ao mesmo tempo com um toque algo caricatural o que cria o contexto e o tom ideal para o resto do filme.




Também desde o início do filme percebemos que estamos perante uma história trágica. E não digo isto porque as versões anteriores de King Kong são conhecidas por todos mas sim porque as personagens estão carregadas de fatalismo desde o primeiro minuto. E não era preciso irem parar à “Skull Island” ou trazerem o “Rei Kong” para Nova Iorque para as suas vidas desabarem porque antes disso tudo à sua volta já estava num estado de degradação sem esperança. A procura dum sonho no meio da depressão (não só a económica mas a anímica) só carrega ainda mais as personagens dum sentimento de perda constante. E, nesse aspecto, Jack Black está irrepreensível! O seu olhar algo alterado simboliza bem a caminhada que faz em direcção ao abismo num trajecto auto destrutivo que muito diz do tom do filme. Já Naomi Watts transporta no seu olhar esperança mas, pouco a pouco, esse brilho vai desaparecendo e só King Kong parece conseguir fazer com que esse brilho seja notado!

Aliás é na química entre o “monstro” e a “bela” que reside o grande sucesso deste filme. Se de um lado temos uma mulher de carne e osso e do outro temos um monstro imaginário – que ainda por cima é digital – parecia impossível que o realizador conseguisse filmar uma história de amor. Mas Peter Jackson conseguiu-o de uma forma muito intuitiva, ou seja, apenas teve que recorrer a uma história simples e sem falsas pretensões de complexidade, a um humor algo “corny” mas que dava o tom certo e a cenas de intimidade, ingénuas mas não lamechas. E só assim era possível que este filme funcionasse. King Kong é uma personagem como qualquer outra e, muitas vezes, com mais expressões e subtilezas que muitas personagens de “carne e osso”. A sua “humanidade” na selva de pedra de Nova Iorque foi muito bem conseguida e o realizador conseguiu evitar que o filme entrasse numa deriva nessa fase crucial para a “credibilidade” da história.

O filme “pisca o olho” à série B e ao tipo de ingenuidade dum cinema feito em épocas distantes em Hollywood mas há uma marca inconfundível da fase gore e sádica de Jackson. As cenas na “Skull Island” em nada podem ser comparáveis com as do Parque Jurássico porque são cruéis, porque não há concessões e porque não convida as crianças a entrarem no parque de diversões. E, acima de tudo, porque há liberdade criativa para reinventar tudo, sem âncoras com nenhum tipo de realidade histórica. E devo dizer que as cenas de acção são do melhor que tenho visto no cinema, sempre no campo do fantástico.

Síntese da opinião: Apesar de alguns erros menores de continuidade considero que Peter Jackson transformou este filme no apogeu do cinema de entretenimento da história mais ou menos recente da Sétima Arte. Herda, com mérito, a influência que George Lucas e Steven Spielberg tinham conquistado com os seus “blockbusters”! Imperdível!

4 Comments:

  • At 8:38 da manhã, Anonymous bravo said…

    Confesso que não estava com grande vontade de ir ver, mas agora sou capaz de arriscar...

    Abraço

     
  • At 7:08 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Bravo,

    Na minha opinião vale mesmo a pena! Mas no cinema, e nas outras artes da vida, não estamos nem devemos estar sempre de acordo...

    Abraço,

     
  • At 3:09 da tarde, Blogger gonn1000 said…

    Gostei bastante, e nem sou fã do trabalho de Jackson na trilogia de Tolkien. É um dos melhores blockbusters de 2005 (mas perde na comparação com o de Spielberg).

     
  • At 3:30 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Gonn1000,

    Discordo do teu ranking. Aliás até achei o "War of the worlds" muito fraquinho.

    Mas o que importa é que a sétima arte continue a representar gostos muito distintos!

    Abraço,

     

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