Filho do 25 de Abril

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domingo, junho 18, 2006

864. O adormecimento intelectual do homem na frente de batalha, segundo George Orwell


George Orwell - Recordando a Guerra Espanhola



"O horror essencial da vida militar (qualquer pessoa que tenha sido soldado sabe o que quero dizer com isto do horror essencial da vida militar) pouco depende da natureza da guerra em que se combata. A disciplina, por exemplo, é fundamentalmente a mesma em todos os exércitos. As ordens têm de ser cumpridas, sendo impostas, se necessário, como castigo; e a relação entre oficiais e soldados é necessariamente a relação entre gente superior e inferior. A imagem da guerra dada a público em livros como A Oeste Nada de Novo é substancialmente verdadeira. As balas ferem, os cadáveres fedem, e os soldados, debaixo de fogo, sentem-se tão apavorados que chegam a mijar nas calças. É verdade que a origem social do exército dará determinado aspecto à instrução militar, às tácticas e à eficácia geral, sendo também verdade que a consciência de se estar no caminho certo pode apoiar a moral, embora isto afecte mais a população civil do que as tropas. (As pessoas esquecem que os soldados junto à frente de combate, seja onde for, se encontram geralmente demasiado famintos, ou assustados, ou cheios de frio, ou, sobretudo, cansados demais para se preocuparem com a origem política da guerra). Não é pelo facto de um exército ser "vermelho", para uns, ou "branco", para outros, que as leis da natureza ficam suspensas. Um piolho é sempre um piolho e uma bomba é sempre uma bomba, mesmo quando a causa que nos leva a combater possa ser justa."


Recordando a Guerra Espanhola, George Orwell, Antígona



Pequeno comentário: George Orwell desvaloriza a importância do certo ou errado - e das ideologias - na frente de batalha. Considero, lendo as palavras de Orwell, talvez abusivamente, que o autor aponta para uma maior responsabilidade da "população civil" na fiscalização das razões que sustentam a guerra ou, pelo menos, que os civis são mais susceptíveis do que os soldados ao tal 'certo ou errado'. Isto porque, na frente de batalha, os instintos de sobrevivência do homem sobrepõem-se a ideologias ou a noções do certo ou errado. Digo até que se uma guerra é motivada por um objectivo civilizacional ou social - quase sempre nacional - então que, após o início das hostilidades no terreno, o soldado esquece todas essas motivações e perde a percepção do 'todo' até abandonar o cenário de guerra - diria que há um adormecimento intelectual do homem perante as limitações físicas e a ameaça eminente da morte. Se este raciocínio está correcto aumenta, e muito, a responsabilidade dos nossos representantes e, em última instância, dos civis em definirem e fiscalizarem os limites das guerras (que são, muitas vezes, inevitáveis).

2 Comments:

  • At 5:28 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    "Breve achega"

    133 AC - «Cent trente trois ans avant l´ère chrétienne, Tiberius Gracchus, fils de Sempronius et de Cornelie, était élevé à la dignité de tribun. C´ était un fils des classes supérieures…En face de l´orage (a) montant de la foule des esclaves, les premières paroles de Tiberius du haut des rostres (b) furent pour flatter (c) l´insurrection - «Nos généraux vous incitent à lutter pour les temples et les tombes de vos aieux. C´est un appel inutile et mensonger. Vous n´avez pas d´autels (d) de vos pères, vous n´avez pas de tombes ancestrales, vous n´avez rien. Vous ne combattez et vous ne mourez que pour procurer le luxe et la richesse des autres»
    Obs: A propósito dos dramas da família Kennedy (Dallas) / «...os Kennedy tinham ficado vivamente impressionados pela desigualdade das condições sociais da sociedade norte-americana»

    PS: página de uma revista francesa do final dos anos sessenta. Do tempo das minhas comissões em África.

    (a) burburinho / b) estrados / (c) lisongear / (d) altares

     
  • At 12:20 da manhã, Anonymous Carlos Indico said…

    Finalmente está a falar quem esteve na guerra, não os comandantes. A guerra de Tróia fez-se pela boazona da Helena?
    Transformar uma rixa ciumenta de taberna ou de casino, por causa de tesão ou pica em História? Por favor....
    A água,os grãos, os combustiveis fósseis, sim. Um dia será o ar.

     

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