Filho do 25 de Abril

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quinta-feira, junho 01, 2006

858. Gastos na Saúde em Portugal


World Health Organization (clique na imagem para ampliar)

O comentário do Hugo Mendes - do blogue Véu da Ignorância - no texto com o tema 856. A despesa da nossa saúde é deveras interessante. O Hugo, entre outras sugestões e opiniões, aconselha - e bem - a analisar as estatísticas antes de opinar sobre se o SNS é caro ou não. O quadro que acima construí dá para fazer uma análise superficial do problema.

1. Apesar de não confirmar alguns dos dados que o Hugo reproduziu o quadro mostra que os gastos em saúde (totais) em percentagem do PIB não é muito elevado em Portugal quando comparado com os outros países que escolhi para a comparação;

2. É surpreendente que, entre estes países, Portugal seja o quarto país que mais gasta em saúde privada em percentagem do PIB e gasta tanto (em percentagem do PIB) como os EUA na saúde pública, país onde a saúde não é universal;

Nota: Se tivermos em conta que o nosso PIB, em valores absolutos e por habitante, é menor do que o dos EUA ainda mais é contrariada a ideia que os gastos públicos em saúde sejam muito altos quanto analisamos o indicador de gastos da saúde públicos em percentagem do PIB

3. De entre estes países só a Espanha gasta menos por habitante (preços em dólares, paridade do poder de compra) em saúde;

4. As estatísticas do número de médicos por 100000 habitantes não parecem confirmar o mito que Portugal tem falta de médicos.

Estes números permitem muitas análises e esta é apenas superficial mas vem demonstrar, como o Hugo referia, que partir para uma discussão com o pressuposto que o nosso sistema de saúde tem gastos exagerados pode ser precipitada. Numa análise comparativa com países de referência ao nível dos gastos a conclusão de que há muito desperdício não é nítida mas falta avaliar a qualidade dos serviços médicos, principalmente os efectuados no sector público. Fica para um dos próximos textos, com mais indicadores para correlacionar.

4 Comments:

  • At 2:04 da manhã, Blogger Hugo Mendes said…

    Os valores que referi citei-os de cabeça, mas cometi um desvio; em 2002, o Reino Unido gastou 7,7% do PIB em saude, contra os 14,7 dos EUA (os 15% foram atingidos em 2003); 6,4 em Inglaterra (dos 7,7) foram para o sector publico universal, enquanto nos EUA o mesmo sector nao-universal consumiu 6,6 (dos 14,7). E' sempre dificil avaliar a qualidade do serviço médico, mas, por exemplo, em termos de esperança média de vida, os EUA ficam aquem da maioria dos paises mais avançados, e abaixo da média da OCDE (tanto em homens como em mulheres).

    Em 2003*, cada cidadao americano gastou, em media, 5635 dolares em cuidados de saude; os paises cujos valores mais se aproximam (atençao, falamos de "parité de pouvoir d'achat") sao a Noruega, com 3807 e a Suiça, com 3781. Ja o cidadao ingles gastou em media 2231 dolares, ou seja, 39,6% do americano!

    A tendência empirica é portanto esta: quanto mais privado o sistema, mais altos os custos, porque ninguem tem 'mao' nos medicos, que por sua vez estao, deliciosamente, na mao da industria farmaceutica que enfrenta uma crise paradigmatica porque ainda nao encontrou as drogas da nova geraçao num momento em que as patentes que protegem as actuais estao quase a cair no dominio publico. Por isso, a pressao da industria sobre os medicos é enorme para abusar da prescriçao das "velhos" medicamentos.
    Os sistemas publicos sao ineficientes? Talvez. Mas uma coisa é certa: estivesse o Estado "fora" desta area e tinhamos, passe a expressao, o regabofe completo.

    Os dados de 2003 podem encontrar-se aqui no site da OCDE:
    http://ocde.p4.siteinternet.com/publications/doifiles/012005061T002.xls

     
  • At 5:32 da tarde, Blogger Hugo Mendes said…

    Ja' agora, fica o link para um texto que escrevi ha' uns tempos sobre o sistema de saude:

    http://veu-da-ignorancia.blogspot.com/2006/02/presente-envenenado.html

     
  • At 11:11 da tarde, Blogger polittikus said…

    Creio que ficamos todos com uma triste ideia do SNS. Pelo dinheiro gasto andamos todos a morrer...

     
  • At 12:10 da tarde, Blogger João Dias said…

    Aquilo que também me preocupa é se discutimos o SNS de saúde de forma séria ou se falamos na despesa no sentido de depois preconizar a privatização como cura para todos os males.(não é dirigido para ninguém pessoalmente)
    É preciso desde já dizer algo bem claro, a questão privado e público é importante porque explica a aparência do privado ser melhor gerido do que o público. O privado exerce a sua gestão numa óptica de mercado e de competição, logo tenta reduzir despesas para ter maior lucro, por sua vez o serviço público tem a garantia da contribuição dos impostos logo pode concentrar-se em prestar um bom serviço em vez de se preocupar tanto em reduzir custos.
    Além disso para nós a óptica da despesa no público é mesmo a despesa do SNS enquanto nos privados a despesa (na nossa óptica) são os preços praticados pelo mesmos, e aí fica bem claro que não seríamos propriamente bafejados por uma diminuição da despesa.

    Mais, parece-me que as pessoas tendem a sobrevalorizar a gestão privada de forma errónea, isto porque a realidade dos privados na saúde é sempre para um "público" muito menor, enquanto o público lida com situações mais problemáticas e com mais gente.
    Basta pensar para onde vão quase todos os casos de urgência...

    Sobre os números, talvez o mais significativo seja mesmo os gastos em saúde per capita, aí Portugal de facto só gasta mais do que a Espanha. No entanto isto é passível de duas leituras, aqui até podíamos dizer que afinal o dinheiro afinal é bem gerido porque conseguimos que a despesa por indivíduo seja a menor. Por outro lado também podemos justificar alguma insatisfação com o SNS através do nível pouco significativo de investimento quando
    abordado a nível individual.

    Além disso os números que mais me preocupam são os da evasão fiscal e aqueles que não sendo evasão fiscal exercem projectos lucrativos sem produzir nada de "valor acrescentado" para a sociedade.
    Enquanto isso estiver podre como está bem podemos esmifrar e reduzir despesas em sectores vitais para a sociedade que vamos continuar a ter de reduzir ainda mais tal é o fluxo de dinheiro que foge às mãos do Estado, às mãos de toda a gente.

     

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