Filho do 25 de Abril

A montanha pariu um rato - A coerência colocada à prova - A execução de Saddam Hussein - O Nosso Fado - "Dois perigos ameaçam incessantemente o mundo: a desordem e a ordem" Paul Valéry, "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa, salvar a humanidade", Almada Negreiros - "A mim já não me resta a menor esperança... tudo se move ao compasso do que encerra a pança...", Frida Kahlo

terça-feira, maio 23, 2006

848. Prós e Contras: Sob o Signo da Verdade, de Manuel Maria Carrilho


Um debate "cinzento" nas ideias

A "arena" da RTP teve ontem um dos seus maiores combates de boxe de todos os tempos. O problema é que, como em qualquer combate de boxe, dá-se muita "porrada" e, no fim, não fica nada de pedagógico para memória futura. Alguns, porventura, vão recordar a "mordidela" na orelha ou o murro nas partes baixas com que se presentearam os principais adversários - Manuel Maria Carrilho (MMC) e Ricardo Costa (RC) - mas, no fundo, ninguém, nem nós, ficou a ganhar porque o ruído da batalha abafou qualquer tipo de reflexão ou conteúdo que o debate possa, a espaços, ter tido.

A "verdade" - utilizando parte do título do livro de MMC - de Carrilho parece-me frágil e José Pacheco Pereira (JPP), de forma pedagógica e com o seu estilo paternal, explicou ao ex-candidato à Câmara de Lisboa que ele não é um caso "especial" e que não está, como é óbvio, isento de responsabilidades tanto pela derrota como pelo tratamento que a Comunicação Social lhe dá. Não está em causa o trabalho de MMC - devo sublinhar que o considero o melhor Ministro da Cultura que Portugal teve no pós 25 de Abril (incluíndo os Secretários de Estado) - mas simplesmente a falta de empatia (JPP foi certeiro ao lançar esta farpa) que MMC teve com os lisboetas e tem com o país é a única explicação plausível para a sua derrota.

O debate foi desinteressante e inconsequente e revela bem o estado da Comunicação Social, ou seja, em vez de tentar provocar a reflexão ou mediar a mensagem prefere embarcar num debate com um modelo preparado para a agressão e para a resolução, em público, de problemas pessoais. Indirectamente este debate foi o melhor exemplo do comportamento da Comunicação Social no debate e informação política pois houve muito espectáculo e nenhum conteúdo. E não faltam assuntos urgentes para debater dentro desta temática como a influência da CS na percepção do trabalho político, a mediatização da notícia e da própria política e a linha que deve separar a vida privada da vida pública dum político. Mas, como era de esperar, ficamos mais uma vez no acessório e o essencial fica para discutir no dia em que der audiências...

Uma palavra final para Ricardo Costa. Destaco RC (e não MMC, que esteve ao mesmo nível) porque tenho um especial respeito pelas suas capacidades como jornalista e lembro-me até que uma das melhores entrevistas políticas que assisti nos últimos tempos foi conduzida por ele (a Durão Barroso) mas o que se passou ontem afectou, e muito, a credibilidade e o respeito que sentia pelo seu trabalho e pessoa. E o que se passou ontem - inconfidências, revelação de pormenores de bastidores, recados, ataques pessoais demolidores, mesquinhez nos argumentos - foi grave e foi, acima de tudo, uma desilusão. É pena...

4 Comments:

  • At 9:22 da tarde, Blogger pedro oliveira said…

    Ricardo,

    Provavelmente, conheces:
    http://margensdeerro.blogspot.com/2006/05/jornalista-e-o-especialista-estudo-de.html
    coloco-o (ao «link») aqui, pois, penso que é elucidativo do jornalismo que temos.

    Concordo, parcialmente, com a tua análise.
    Não atribuiria um ar paternalista a Pacheco Pereira, parece-me que a determinada altura se interrogava: O que estou aqui a fazer?

    Quanto à maneira como interpretas as palavras de Ricardo Costa, recordo-te que ele estava a enfrentar Rangel (o homem do berbequim) e Carrilho (o homem que usa a mulher e o filho como dois botões de punho, um adereço ao serviço da sua [dele] insuportável vaidade) daquilo que vi, pareceu-me que Costa conseguiu dominar-se muito bem, excepto quando lhe chamavem estúpido e incompetente (não com estas palavras) e se viu obriagado a reagir.
    Aquilo que não gostei em Ricardo Costa (presumo que seja o mesmo que te incomodou) foi a reacção e não a acção, Ricardo nunca atacou, defende-se (por vezes com ataques).

     
  • At 10:11 da manhã, Anonymous Netwalker said…

    Na Comunicação Social, tal como na maior parte das Areas Humanisticas e Sociais, existem demasiados Profissionais "deslocados".
    A Vocação preponderante para o desempenho de certas funções está mal suportada por debeis competências.
    Adorava ser um brilhante jogador de bilhar, mas se nem sei pegar num taco...

     
  • At 8:24 da tarde, Blogger Nuno Guronsan said…

    Não tive oportunidade de assistir ao debate por motivos profissionais, mas se o Ricardo Costa, jornalista por quem também senti até há pouco tempo um grande respeito e um exemplo de jornalismo "a sério", esteve ao mesmo nível que aquando da cobertura das eleições presidenciais (onde demonstrou, no meu entender, uma clara parcialidade por um certo candidato), então ainda bem que não vi. Assim ainda posso manter na minha memória o que de bom este jornalista já fez...

     
  • At 12:09 da tarde, Blogger Joana Dias said…

    Ricardo,
    devo dizer em primeiro lugar, que partilho contigo inteiramente a opinião que aquele "debate" (vamos chamar-lhe assim, porque não encontro outro nome) foi triste.
    Para mim não se tratou de mais nada se não de um processo de lavagem de roupa suja em público.
    Serviu, sim, para mostrar que, pelos vistos (para mim é uma surpresa que os assuntos se possam debater naquele nível por aquelas pessoas; mas penso que isso será ingenuidade da minha parte) os profissionais da comunicação também achincalham em "hasta pública" quando se sentem muito picados por injustiças(algo que julgo que não estão muito habituados a sofrer, mas mais a exercer).

    Devo dizer, ainda, que concordo plenamente com o pedro oliveira no que diz respeito à apatia (e um desconforto perfeitamente visível no rosto) de Pacheco Pereira. Penso que se tivesse um lugar para se esconder o teria feito.
    Agora, gostaria de fazer a minha crítica (desde há já muito tempo que sinto isto) em relação a Ricardo Costa.
    Não ponho em causa a sua competência (que já se traduziu, aliás, em eficácia em determinados resultados políticos), mas em relação à sua postura deontológica...
    Não gosto, como director de um canal noticioso tão importante, da sua parcialidade crítica. Nunca me hei-de esquecer da sua prontidão a "crucificar" Ferro Rodrigues na no dia em que Paulo Pedroso foi preso. Só lhe faltou dizer com todas as letras (porque o disse repetidamente de forma implícita) que FR era um dissoluto por ter no seu partido aquele senhor. Não vamos já nem falar do desenrolar dos acontecimentos desde então. Só acho estranho ser irmão de quem é, e este estar agora onde está. e onde sempre quis estar. Não me admiro nada de ser o próximo candidato a primeiro ministro quando o Sócrates cair (porque algum dia vai ter que ser). Mas isto sou e as minhas "teorias da conspiração"... :)

     

Enviar um comentário

<< Home