Filho do 25 de Abril

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quinta-feira, maio 25, 2006

849. Sala de Cinema: Inside Man


Spike Lee a filmar Nova Iorque

Realizador: Spike Lee
Elenco: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe

Nova Iorque é uma cidade magnífica e complexa e, concerteza, difícil de filmar. E se Woody Allen é – ou era – especialista em filmar esta cidade como o local próprio para um neurótico narcisista extravasar as suas loucuras, Spike Lee é, por sua vez, um realizador que sabe introduzir de forma natural, em qualquer história que tenha lugar nesta cidade, a interacção entre cidadãos com múltiplas raças e nacionalidades. E é por causa desta naturalidade que o contexto dos filmes de Spike Lee é especial e isso ajuda, e muito, a que a história saia valorizada. A história, se reflectirmos bem, está longe de ser boa e, mesmo assim, não saí da sala de cinema insatisfeito com o filme. Chego naturalmente à ilação de que o filme vive mais do estilo de realização – intenso, natural, informal, ritmado – do que propriamente da história (os diálogos e as interpretações também estão a um bom nível).


Denzel Washington e Clive Owen em Inside Man, de Spike Lee

Nesta história sobre o “assalto perfeito” não é convincente a dimensão conspirativa que o filme ganha com a introdução da personagem de Jodie Foster. Parece que foi necessário subir a fasquia do assalto para patamares, digo eu, ridículos para que esta personagem ganhasse dimensão. Assim mistura-se o nazismo, uma conspiração na Câmara de Nova Iorque e um banqueiro comprometido para justificar o papel de Jodie Foster e, ao mesmo tempo, oferecer à personagem de Clive Owen uma aura quixotesca com uma pitada, só uma pitada para não perdermos de vista a ténue linha entre o mal e o bem, de altruísmo. Esta “conspiração” estragou em parte o filme e era uma armadilha letal para qualquer outro realizador mas Spike Lee conseguiu “aguentar” bem o filme e só claudicou no final ao arrastar o enredo para além da área em que está contido o interesse pela história.

O filme é um jogo do gato e do rato à distância e em espaços bem delimitados (faz lembrar uma simbiose entre dois filmes com Al Pacino, Dog Day Afternoon e Heat). O gato – será Denzel Washington ou Clive Owen? – e o rato – a dúvida volta a ser colocada – têm aqui um interessante confronto intelectual e, novamente, a ideia base é a de que estas duas pessoas, noutras circunstâncias, seriam bons amigos (novamente Heat, Collateral). Denzel Washington e Clive Owen estão num bom nível e ajudam, e muito, a tornar o filme mais interessante e intenso.

Síntese da Opinião: Para quem gosta de assistir a um bom confronto intelectual entre antagonistas que caminham numa linha ténue entre o “bem” e o “mal”. Como sempre, neste tipo de filmes, estes confrontos acontecem num contexto de “realismo exagerado” mas a “mão” de Spike Lee transforma a película num bom momento de lazer.

Memórias do Filho do 25 de Abril: Sétima Arte (todos os textos deste blogue sobre cinema)

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2 Comments:

  • At 8:35 da tarde, Anonymous Netwalker said…

    Tenho de me "infiltrar" urgentemente numa sala do Arrábida e ver este Inside man!

     
  • At 3:38 da manhã, Blogger Joana Dias said…

    Bem, tenho que ver o filme. Sobretudo porque (eu já o queria ver e) fiquei entusiasmada com a tua ilustrativa análise.
    Sou daquelas pessoas que ADORA cinema e detesta que lhe digam "não me contes a história, se não perde o interesse". Da mesma forma que um livro vive das palavras, um filme vive das imagens (insubstituíveis e inarráveis). Muitas vezes (há excepções) o filme vale por tudo, menos pela história... e mesmo assim vale.
    Devo confessar que Spike Lee era até há bem pouco tempo um realizador para mim desconhecido, mas depois de ver «She Hate me» (que adorei aliás) fiquei com bastante vontade de conhecer melhor o estilo do senhor.

     

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