Filho do 25 de Abril

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sábado, setembro 04, 2004

(157) Análise à Situação da Economia Portuguesa

No Expresso de hoje, no suplemento Economia & Internacional, sairam dados interessantes sobre a Economia Portuguesa. Apesar de poderem aumentar os Quadros, bastando carregar nas fotos, peço desculpa pela sua qualidade.


Quadro 1 Posted by Hello

Este primeiro quadro é bem elucidativo de um dos principais problemas estruturais da nossa economia. Entre 1990 e 2002 a nossa despesa aumentou 9,6% enquanto o nosso nível de fiscalidade aumentou 5,3% (Contribuições e Impostos) em % do PIB (não em níveis absolutos onde subiram ainda mais). É o pior resultado a nível Europeu, tendo o Financiamento Fiscal recuado 4,3%. Calamitoso. Onde se gastou o dinheiro? Nas Transferências Sociais (só na Alemanha subiram mais em percentagem) e em Salários (de longe onde nos afastamos mais dos outros países Europeus). Calamitoso.

Mais más notícias. Em 1990 os nossos impostos e contribuições eram gastos em 40% nos salários, em 2002 em 45%. Calamitoso o que Cavaco e Guterres fizeram. A única boa notícia é a diminuição do peso dos juros nos gastos do Estado (de 29% para 9%) muito por culpa dos critérios que tivemos de cumprir para a entrada do Euro na Dívida Pública. Portugal... "é hoje o país dos Quinze onde os salários absorvem maior percentagem de impostos". Mesmo assim, devido à brusca queda do pagamento de juros, estamos melhor que em 1990 mas está provado que a economia gerou menos riqueza que aquela que teima em distribuir em salários e transferências sociais. Calamitoso ao nível Europeu.


Quadro 2 Posted by Hello

Este quadro é só a confirmação que mesmo em 2003 e 2004 a despesa não esteve controlada. A redução do défice fez-se através de políticas de curto prazo como receitas extraordinárias e redução do Investimento Público. Calamitoso para as próximas gerações. Só este ano prevê-se que o Investimento Público recue 24%, consequência óbvia do Quadro 1 já que os gastos em Salários e Transferências Sociais absorvem todas as receitas (que também sofreram uma grande quebra). Diz a Teoria Económica que a contenção salarial não deve acabar mas não podemos continuar a estrangular a economia uma vez que precisamos urgentemente gerar mais riqueza. E só se gera mais riqueza com Investimento Público e com incentivos à produção já que a baixa de impostos e o incentivo ao consumo não são aconselháveis agora. O que tem sido feito é contra-natura, já que em recessão o Estado não deve estrangular a actividade económica já que isso gera ainda mais problemas orçamentais. A despesa devia ser controlada nos salários e nas transferências sociais, não no Investimento Público. Se o país estagna (exemplo, aumento do IVA, país de tanga, corte cego no Investimento, mesmo o co-financiado, degradação da Saúde, Justiça e Educação) baixam as receitas do Estado e aumentam as transferências sociais via Subsídio de Desemprego. Calamitosa a política de Durão.


Quadro 3 Posted by Hello

Estão fartos de más notícias? Lamento mas tenho mais uma. Portugal foi dos países que mais debilidades apresentou na Zona Euro. O Euro trouxe ganhos de 7,5%, em média, nas trocas comerciais dos países da Zona Euro. Portugal encolheu 1,8%. É o reflexo não dos problemas do Euro (já respondo ao Raio, do blog Cabalas por antecipação) já que os ganhos foram positivos, em média, mas demonstra ou que entramos artificialmente no Euro (a coesão estava incompleta e alguns indicadores foram adulterados pelas privatizações) ou que somos pouco competitivos. Escolham. Seja qual fôr a escolha, verdadeiramente calamitoso. Estamos a andar para trás. Pobre futuro o nosso...

5 Comments:

  • At 9:45 da tarde, Blogger O Raio said…

    Também li isto tudo e, como por acaso até tenho uma interpretação muito diferente da tua, até estava a preparar um post sobre o assunto.
    Aproveito no entanto para referir o último quadro que publicas, o impacto do euro nas trocas comerciais.
    Pena que o quadro só mostre dez países.
    O que perde mais é Portugal seguido da Finlândia e a seguir, o que ganha menos é a Irlanda. Isto apesar do investimento americano que chega à Irlanda, quinze vezes (se não estou em erro) maior do que o dinheiro ilíquido que a UE nos manda!
    Isto só ajuda a provar o que os nossos economistas há muito diriam se tivessem coragem para criticar a adesão ao Euro. Os países mais periféricos perdem, os países mais centrais ganham.

     
  • At 10:57 da tarde, Blogger polittikus said…

    Li a análise editada no expresso, tudo se resume a uma máquina estatal exessivamente pesada... daí a loucura dos gastos em ordenados.

     
  • At 12:46 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Caro Raio, não escolheste nenhuma das hipóteses que eu coloquei em cima da mesa, a falta de produtividade ou a artificialidade dos indicadores aquando da entrada no Euro. Colocaste outra hipótese, o facto de Portugal ser periférico. De facto é uma dificuldade que nunca vamos conseguir ultrapassar, temos de nos adaptar a ela e nunca o fizemos. Concerteza que fechar as fronteiras e manter as nossas empresas artificialmente nunca vai ser uma boa política. Décadas de Proteccionismo só prejudicaram a nossa produtividade e aí está a nossa maior carência, cada vez mais posta a nú (O Euro só vem mostrar ainda mais essa realidade). Precisamos de nos adaptar aos tempos não pensar que com mais protecção vamos conseguir chegar a algum lado.

     
  • At 1:03 da tarde, Blogger O Raio said…

    "falta de produtividade ou a artificialidade dos indicadores aquando da entrada no Euro"
    Não discordo disto. Claro que a produtividade é baixa e que os critérios de Maastrich eram artificiais.
    Mas isto só mostra que não deviamos ter entrado no Euro. A adesão à EMU foi um erro crasso. Cada vez isso é mais visível e acho errado o raciocínio "foram-nos dadas as oportunidades, nós é que não soubemos aproveita-las". Não, não nos foram dadas oportunidades. Cortaram-nos foram as pernas.

    "Colocaste outra hipótese, o facto de Portugal ser periférico. De facto é uma dificuldade que nunca vamos conseguir ultrapassar, temos de nos adaptar a ela e nunca o fizemos"

    Exacto. E nunca o fizemos porquê? Porque o funcionamento da própria UE não o permite.
    Ter regras de concorrência iguais para uma empresa quer ela esteja em Frankfurt em que num raio de 200Km tem uns 40 milhões ou mais de potenciais clientes, ou em Lisboa em que tem uns 4 milhões ou na Madeira em que tem 0,35 milhões é profundamente injusto e só conduz ao desastre para uns e à fortuna para outros. Claro que os do desastre somos nós.

    "Concerteza que fechar as fronteiras e manter as nossas empresas artificialmente nunca vai ser uma boa política. Décadas de Proteccionismo só prejudicaram a nossa produtividade"

    Esta frase de "manter as empresas artificialmente" é uma frase sem sentido embora muito usada.
    Quanto às décadas de proteccionismo que nos prejudicaram é também absurdo.
    Na fase de desenvolvimento industrial, o Reino Unido e os Estados Unidos, por exemplo, eram extremamente proteccionistas.
    Mesmo a Espanha, aqui mesmo ao lado, era provavelmente o país da Europa mais proteccionista. Portugal sempre foi uma economia muito mais aberta.
    Pergunta a alguém com mais de 50 ou 60 anos que tenha visitado Espanha na década de 60 ou mesmo na de 70. Só se vendiam produtos espanhóis, baratos e de má qualidade. Qualquer português que lá fosse ficava chocado com a má qualidade de tudo o que estava à venda. A indústria espanhola que nos invade actualmente foi construída à custa de um proteccionismo feroz!

    Eu não defendo, nem nunca defendi o proteccionismo. Acho no entanto que são necessárias políticas que defendam minimamente a nossa economia.

    Tudo o que escrevestes no teu artigo pode ter uma explicação muito simples, explicação que, à priori e por razões ideológicas e não lógicas, rejeitas, que a adesão à CEE/CE/UE nos está a prejudicar!

    Já agora, muita empresa portuguesa está a ser deslocalizada com fortes repercussões negativas na nossa fiscalidade e, por outro lado nestes raciocínios sobre a máquina da administração fiscal nunca se chama a atenção sobre o custo de manter o "acquis communitaire" as creio que quase 100.000 páginas de regulamentos que a UE nos impõe.
    A despesa pública não pode ser comparada em relação ao PIB tem de ser comparada em números absolutos pois as solicitações são iguais independentemente do PIB do país.

     
  • At 5:17 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Caro "Raio",

    Eu não estou totalmente de desacordo contigo mas há de facto alguns pontos que não concordo mesmo. Eu admito que o Euro é bom para a Europa mas não tem sido para nós (até a Irlanda, país periférico como enuncias ganhou com o Euro) mas eu não vejo nenhuma estratégia nas desastrosas políticas nacionais para tentar inverter isso. Eu também concordo que não deveríamos ter entrado numa primeira fase do Euro, devíamos ter usado a opção de poder gastar mais já que a convergência estava longe de ser feita. Não esquecer, porém, que a pressão era grande para a nossa entrada já que os nossos políticos insistiam que não queriam uma Europa a duas velocidades, esqueciam-se é que não nos queriam numa primeira fase exactamente para haver mais liberdade orçamental. Não era uma "maldade" europeia, era um aviso que a nossa coesão não estava feita.

    Quanto à periferia de Portugal não esquecer que tem sido a própria UE que tem tido políticas de combate a essa inevitabilidade geográfica. Que o diga a Madeira, completamente transformada pelos fundos Europeus.

    Estar aberto às trocas europeias não invalida haver políticas não de protecção mas de desenvolvimento da eficiência das nossas empresas. Mais um campo em que não há estratégias nacionais. Veja-se os avanços e recuos na I&D, na ligação Universidades/Mundo Empresarial, na Justiça. Não podemos culpar a UE da falta de ambição e da incoerência dos nossos políticos.

    Quanto à maquina da Administração Pública é claro que temos de analisar em termos relativos (face ao PIB). Há países mais pequenos ou de dimensão igual à nossa onde isto não aconteceu. Ninguém nos obrigou a aumentar os salários reais tantos anos seguidos sem aumento da produtividade, ninguém nos obrigou a optar por promoções automáticas na Função Pública, ninguém nos obrigou a aumentar as transferências sociais sem financiamento garantido. Os nossos electrodomésticos têm agora, graças às regulamentações da UE, a eficiência energética que tem mudado a mentalidade de produtores e consumidores, serão assim tão estúpidas as regulamentações?

    Não vou dizer que a UE tem sido boa para Portugal (para o conjunto tem) mas não nos podemos divorciar das nossas culpas, as principais. A culpa de querermos ser bons alunos, de não termos ambição, de cada vez mais gastarmos mal o nosso dinheiro.

     

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