Filho do 25 de Abril

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segunda-feira, novembro 15, 2004

(233) Lisbon revisited (1926)


Lisbon revisited (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos




Estou de volta ao Porto! Sobre Lisboa não há muito a comentar porque continua refrescante! Há que deixar só aqui uma nota porque Fernando Pessoa não consegue descrever a Lisboa do século XXI. Sempre que visito o Parque das Nações torna-se claro, como a água límpida do passado, o rumo que Portugal deve ter. No Marquês o futuro de Portugal vejo nublado, incerto da resistència deste país a mais uma geração de incompetentes regentes.

Entretanto a Dona Zulmira, vidente de profissão e pessoa agarrada aos bens materiais porque nem só de virtudes vivem as mulheres ligadas aos vários tipos de magia, brancas e negras, mandou-me um Kolmi. Eu, na minha inocência, lá telefonei para o número de Valor Acrescentado, para ouvir o que já tinha previsto. A Zulmira, Dona de acrescento artístico, aconselhada pelos búzios e baralhos com cartas já inexistentes por clientes menos susceptíveis a estes fenómenos do sobrenatural, prevê que José Rodrigues dos Santos vá ser o novo correspondente da RTP no Iraque. Ai, Zulmira, estás a ficar muito previsível...

3 Comments:

  • At 11:11 da manhã, Blogger Didas said…

    Mas ele já era director sem ter que ir parar ao cu de judas!

    Ai não percebo nadinha destas coisas, ainda bem que a D. Zulmira se faz pagar bem. A mim é só a miúda que me manda kolmis e é sempre para pedir para ir à discoteca.

     
  • At 2:33 da tarde, Blogger polittikus said…

    Lisboa, são duas cidades numa só. A velha Lisboa dos pombos e dos vendedores de cautelas, com as castanhas a saltar e a outra nova e limpa com edificios espelhados... dois sentimentos em colisão.

     
  • At 2:38 da tarde, Blogger amita said…

    Grata pela tua sugestão e pela visita. Já fui ao prazer do silêncio que, numa rápida leitura, comentei. Voltarei mais tarde para te ler com cuidado e atenção. Só como mera e intencional observação, o Porto não tem nada a ver com Lisboa. Mas voltarei. Fica bem e tem um excelente dia de sol pela Invicta. Amita//brancoepreto.blogs.sapo.pt

     

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