Filho do 25 de Abril

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quarta-feira, janeiro 12, 2005

(290) Páginas Soltas (11): Como um Rio Invisível, de António Loja



“(...) deve ser o destino dos agnósticos: duvidar das suas próprias dúvidas.”

Para muitos este autor, António Loja de nome, é um completo desconhecido. Para mim representa muito! Tenho que recuar mais do que uma década para (tentar) descrever como este cidadão do mundo influenciou a minha maneira de pensar. Durante três anos o professor António Loja, homem pensante e animal político, ensinou-me história e, mais importante, a reflectir com exigência o mundo. A Madeira tem a particularidade de premiar os carneiros e reprimir as mentes pensantes. Este homem não foi premiado...

António Loja refugiou-se no ensino mas a História era um veículo para um objectivo mais nobre, colocar os alunos a pensar, a desenvolver um espírito crítico e, mais importante, exigente. A vontade de reflectir não pode ter balizas, os valores têm que ser rectos e o espírito livre.

A minha maneira de pensar e reflectir foi influenciada pela educação que tive, pelos pais que tive a sorte de ter. Depois as ideias e valores herdados dessa fase precisavam de ser estruturados. Nada melhor que a própria experiência que a vida nos dá, nada como ser o advogado do diabo (brincar com o contraditório) com amigos e irmão e nada como ter professores que nos marcam, e António Loja foi o principal!

“Para mim, apesar de não estar ligado formalmente ao catolicismo, sou um ferveroso adepto do livre arbítrio e creio que só este representa o triunfo do Homem, pela dignidade que imprime às suas acções e pela responsabiliddae que lhes acrescenta. É que só a liberdade de escolha distingue o Homem dos outros seres vivos. E, já que conquistámos passo a passo e muito penosamente esse lugar no topo da hierarquia da vida, seria lamentável que voltássemos atrás, subordinando a nossa liberdade ao arbítrio e aos caprichos de um qualquer deus.”

Desde que saí da Madeira nunca mais falei com ele mas continuei a acompanhar o seu trajecto. O seu projecto desafiador de nome
Re-Nhau-Nhau foi uma das muitas provocações que Loja teve a coragem de lançar a um regime que formata a mentalidade dum povo. Não vou sequer tentar descrever a reacção de quem governa o arquipélago...

“E muitas vezes, ao analisar governantes e governados, no meu país, penso que o espírito inquisitorial persistiu, naqueles e nestes, até hoje.”

“Mas também é bom que não se iluda com o verniz democrático com que os Portugueses poliram os seus comportamentos desde 1974.”





Quando vi um livro deste autor nas livrarias nem pensei duas vezes em comprá-lo. O livro divide-se em duas histórias. A primeira, “Sempre”, parece uma compilação de fragmentos. É uma história de amor carregada de nostalgia e de optimismo. A segunda, “Caminhando sobre um Campo de Minas”, é o regresso do autor à Guerra Colonial. Fala do destino ou do acaso, e como um ou outro são responsáveis pelas perversas ironias da vida!

Obrigado, professor! O Filho do 25 de Abril também é, de alguma forma, resultado da sua forma de encarar a vida...

* As citações e imagens foram retirados da obra “Como um Rio Invisível”, de António Loja

8 Comments:

  • At 1:39 da manhã, Blogger mfc said…

    Qualquer professor que se "dê" aos seus alunos, deixa uma marca que perdura!

     
  • At 10:09 da manhã, Blogger Didas said…

    Do professor nunca tinha ouvido.
    Da mania de premiar carneiros e reprimir as mentes brilhantes descansa... não é só na madeira.

    Oh p'ra mim aqui tão reprimidinha! :-))))

     
  • At 11:23 da manhã, Blogger Armando S. Sousa said…

    Há sempre um ou outro professor que influencia a nossa visão do mundo. E felizmente que assim é.
    Agora a "Didas" já disse mas eu tenho também que afirmar, que Portugal no geral, tem a particularidade de premiar os carneiros, aliás um dos anteriores post's por ti colocados e referentes aos deputados é esclarecedor, sobre esta visão do Professor.

     
  • At 12:13 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Onde se situa a fronteira que separa a ficção da realidade? Será possível, a quem escreve, isolar-se a tal ponto das suas personagens que possa evitar ser uma entre elas ou estar um pouco em cada uma delas? As histórias que podem parecer inventadas espelham, mesmo que involuntariamente, as vivências de quem as escreve. Duas histórias com retalhos do real.

     
  • At 7:48 da tarde, Blogger Ricardo said…

    mfc... a marca que este professor deixou ainda perdura!

     
  • At 7:50 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Didas... o título de mente brilhante cai-te que nem uma luva, hehhe

     
  • At 7:52 da tarde, Blogger Ricardo said…

    A.S. ... realmente parece-me que cada vez mais é um fenómeno nacional! Um dia destes rendo-me e torno-me carneiro!

     
  • At 7:56 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Micróbio... "Duas histórias com retalhos do real.", também fiquei com essa sensação. Já tiveste oportunidade de ler o livro?

     

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