Filho do 25 de Abril

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segunda-feira, agosto 14, 2006

892. Fidel Castro



Se tivesse a oportunidade de escolher um líder político com que pudesse "perder" um dia a trocar impressões eu ia hesitar mas, com toda a certeza, Fidel Castro ia estar numa lista muito curta de personalidades políticas que eu gostava mesmo de conhecer.

Não escondo que sinto um certo encantamento - quase juvenil - pela Revolução Cubana, pela luta a favor do direito dos povos lutarem contra a opressão, pela guerrilha sediada em Serra Maestra, pelas utopias sonhadas por Fidel e Che. Mas tal como Che, Fidel é um ícone de algo que não é, é uma imagem num boné que representa tudo menos o homem "real", é um símbolo semelhante a tantos outros que Andy Warhol eternizou e que alguém estampou numa caneca. O mundo - e em particular a história - está repleta de ícones, de símbolos, de lendas que em nada representam a realidade - e nem mesmo os factos - mas que dão ao homem esperança, ou melhor, o homem necessita destes ícones, destes símbolos, destas lendas para poder sonhar, para tentar dar um sentido ao todo. O problema é que estas utopias, quando confrontadas com a realidade, desmontam-se e revelam atrocidades que uma mente crítica não pode ignorar.



A história, ou seja, esta compilação de histórias subjectivas que vamos unindo para tentar dar um certo sentido à nossa evolução como espécie vai moldando as nossas percepções e temo que vai tratar bem Fidel Castro. Da mesma forma que, aqui e acolá, vão aparecendo admiradores de algo - o sonho liberal - que o ícone de Augusto Pinochet representa o mesmo vai acontecer a Fidel.



Eu não posso ignorar - nem quero - que Fidel Castro representa tudo o que eu abomino, representa tudo o que eu combato ferozmente. Mesmo tendo esta vontade obsessiva de trocar impressões com ele, não confundo isso com simpatia e não quero cair na "armadilha" do sectarismo em que os políticos que "encaixam" - de forma mais ou menos forçada - no nosso espectro político "têm" que merecer a nossa defesa cega. Não me interessam os números (porventura positivos) relacionados com a Saúde e nem sequer a (supostamente elevada) taxa de alfabetização porque um regime que promove perseguições e até execuções políticas só merece o meu mais profundo asco. E reforço isto sem hesitação. Sou muito claro! Fidel Castro não representa nada, nada, do que eu defendo e não abdico do que acredito por este, supostamente, defender o socialismo. Mas admito que o homem, por mais aversão que me cause, tem um mundo de histórias interessantes para contar, um sem número de pormenores (relevantes) de bastidores (de várias décadas e sobre vários conflitos) e, quem sabe, sonho e temo, ao mesmo tempo, que me faça planar sobre utopias com as suas palavras.

Resta lançar um olhar para o futuro e para uma Cuba sem Fidel (todos os indícios apontam que a era de Fidel como Presidente da República de Cuba terminou). Eu nunca fui um crítico de Fidel por causa do modelo económico que este implementou - estou farto de defender que não pode haver um só modelo económico padronizado que o conjunto de países desenvolvidos tolere - e não estamos perante nem uma economia planificada nem perante um sistema de mercado. Nem Cuba é comunista no sentido literal do termo - e como Fidel diz agora que é - nem renega o comunismo - como Fidel gritava aquando da sua visita aos EUA. O problema de Cuba, do meu ponto de vista, é estar sufocada pela corrupção, é ser uma ditadura que não permite a livre discussão de soluções, é estar sobre o manto dum embargo completamente ridículo (que só serviu para manter Fidel eternamente no poder). Por isso defendo que o futuro de Cuba deve passar pelo sistema económico que a população livremente escolher logo após haverem garantias de uma Democracia minimamente estável, Democracia essa que deve ser induzida pela própria população com o apoio - mas não a intervenção directa - da comunidade internacional. Entendo que o desenvolvimento imediato de Cuba depende, e muito, da vontade da população na transição e aparentemente não vejo razões para que esta não possa ser feita com estabilidade. O caminho perigoso seria, na minha opinião, optar por intervenções militares ou por armar guerrilhas e só apoiaria este caminho se o actual regime cubano caísse na tentação de abafar qualquer rebelião com violência. Acredito sinceramente que a transição vai acontecer em breve e de forma pacífica. Acredito também que "a história" vai matar Fidel, o homem, como faz com todas as suas personagens, e vai criar um ícone, um símbolo, uma lenda... no fundo, a história vai tratar bem Fidel, El Comandante.

16 Comments:

  • At 2:22 da manhã, Blogger O Raio said…

    Caro Ricardo,

    "Sou muito claro! Fidel Castro não representa nada, nada, do que eu defendo "

    Dou-te os meus parabéns... defendes alguma coisa...

    Eu, para falar francamente não encontro nada para defender...

    Sim, defender o quê?

    Fidel Castro e o seu regime que, embora moralmente seja superior à maior parte dos regimes da América Latina (e não só) que deixam milhares de crianças abandonadas á sua sorte pelas ruas, de Bogotá, São Paulo ou Rio do Janeiro, apresenta no entanto algumas facetas repressivas que me impedem de o defender...?

    Os Estados Unidos que desde há muito que andam a promover o fanatismo muçulmano em nome do combate contra o comunismo, sim os Estados Unidos que criaram os Talibans...?

    A União Europeia, cada vez mais ditatorial e que nos está a estrangular num garrote digno daqueles que Franco utilizava para executar os guerrilheiros da ETA?

    Israel que nos mostra como se pode aprender com os seus antigos carrascos?

    Sim, defender quem ou o quê?

    Um abraço

     
  • At 1:03 da tarde, Anonymous Netwalker said…

    Olá Ricardo,

    Tinha ficado frustrado quando durante a madrugada me apercebi que as fotos de Fidel e de Che haviam desaparecido! Pensei de imediato que tinha sido a CIA ou o SIS! Muito me apraz constar que as imagens voltaram, complementadas com o texto necessario!

    Quanto a conhecer Fidel, gostaria primeiro de Conhecer Cuba e os Cubanos. Já me disseram que é um local que reune o Paraíso e o Inferno (se é que existem ruínas no Inferno!).

    Concordo contigo quando dizes que a História será justa para Fidel. Não são publicamente conhecidos factos do tipo "Exterminio Etnico", "Valas Comuns", etc. Deverá vir a ser reconhecido como o Homem que mais resistiu ao Imperialismo Americano.

    Também acho que o elevado nivel Cultural deste tipo de Lider não lhe deixa margem para grandes Erros Politicos, tipo massacre! Já não terei tanta certeza quanto a Hugo Chavez, a julgar por algumas declarações que nos vão chegando.

    Um abraço

     
  • At 6:37 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Raio,

    Uma vez já tivemos esta discussão e eu "defendi" que todos defendem algo e que isso é inevitável. Tu dizes que não defendes a UE mas eu posso dizer que defendes a saída da UE ou que defendes outro modelo para Portugal. Por isso estamos sempre, de uma forma ou de outra, comprometidos com a defesa de algo.

    Toda a simpatia que possa ter por facetas do sistema económico cubano desaparecem com as notícias de prisioneiros e, pior, execuções por motivos políticos. Basta isso ter acontecido para eu ser intransigente na crítica ao regime. Da minha parte não há concessões nisto e a análise comparativa não minimiza este sentimento (nota que já escrevi alguns textos sobre os EUA e o desrespeito pelos direitos humanos).

    Abraço,

     
  • At 6:41 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Netwalker,

    Não me devo ter expresso bem porque eu não disse "que a História será justa para Fidel" mas sim que "a história vai tratar bem Fidel", o que é bem diferente. Justiça, se este conceito tivesse alguma objectividade, seria que a história tratasse mal Fidel.

    Não há relatos de grandes massacres em Cuba mas há indícios consistentes de execuções por motivos políticos e de uma gritante limitação da liberdade de expressão. Daí não nutrir simpatia pelo homem, apesar de sentir um certo encantamento pelo sonho, pela utopia, pelo que a revolução representa, ...

    Abraço,

     
  • At 1:18 da manhã, Blogger Vítor Sousa said…

    "A História absolver-me-á", profetizou, um dia, Fidel. Concordas?

     
  • At 12:49 da tarde, Blogger Rui Martins said…

    em relação a castro, e ao regime cubano em geral, o que me parece é que é uma pena que não sejam suprimidas todas as barreiras à liberdade de expressão e que se organizem eleições segundo o modelo "ocidental" (seja lá isso o que fôr). Castro continua a ser amado pela esmagadora maioria da população e se foi possível a chavez e a morales chegaram ao poder pela via democrática, pq não conseguiria o mesmo Cuba? Assim se calariama as vozes que acusam o regime cubano de autocrata (com alguma razão, pese embora todo esse fascínio a que aludes e que orbita em torno da figura de Castro).

    Certo é, contudo, que quando o perdermos, perderemos um dos maiores vultos da História do Mundo...

     
  • At 5:25 da tarde, Blogger Paulo Sempre said…

    Marx com o seu "capital" também quiz mudar a história.
    Cuba bem podia sentir menos fome se o "endeusado" Fidel lhes deixasse a sua riqueza material.
    Gostei do blog.
    Abraço

     
  • At 5:17 da tarde, Anonymous bravo said…

    Sim, provavelmente vai tornar-se um ícone (sem o impacto de Che, no entanto). Mas espero que ninguém esqueça a faceta autoritária. Basta pesquisar um pouco para encontrar inúmeras referências a perseguições a opositores, a prisões políticas, a tortura. E não apenas de "inimigos do povo", de "pró-americanos" ou de "vendidos ao capitalismo". Há muitas referências a ex-colaboradores convictos do "socialismo" que cairam em desgraça por ousarem discordar do líder, tendo sido presos vários anos. Portanto não me venham cá com romantismos...
    PS: a propósito, não anda aí uma tentativa de reabilitação de Marcello Caetano? Hmmm...

     
  • At 7:02 da tarde, Anonymous Savonarola/JB said…

    Gostei da profundidade da análise. Pelo meu lado, acrescentaria que será sempre difícil dissociar, em Fidel Castro, o símbolo - da revolução marxista, da libertação do povo cubano - da praxis política. Trata-se de um regime autocrático, com perseguições políticas, limitação aos direitos dos cidadãos. As vozes críticas dizem-no claramente, embora eu tenda a acreditar que sempre houve muita propaganda americana nesta informação, caso contrário, como teria sobrevivido internamente o regime "castrista"? Acredito, sim, que no período pós-castro, se os EUA continuarem ultraconservadores, Fidel Castro será o bode expiatório de todos os males de Cuba.

     
  • At 9:40 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Vítor,

    É difícil dar uma resposta a essa pergunta. A história é algo doifícil de prever porque a história também depende do que vai ser o mundo amanhã, ou seja, as ideias dominantes duma época influenciam a forma como contamos o passado. Infelizmente acho que a história vai tratar bem Fidel e ao fazer isso não está a haver "justiça", mas também, o que é ser justo?

    Da minha parte não renuncio ao que defendo por nenhum tipo de sectarismo...

    Abraço,

     
  • At 9:49 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Rui,

    Nesta fase, ou mesmo na anterior mais recente, já seria tarde para validar a figura de Fidel Castro pela Democracia. Sem ter sido um regime dos mais violentos não deixou de ser um regime que em nada é diferente do que foi o de Salazar: persegições políticas (e algumas execuções confirmadas), falta de liberdade de expressão, violência policial...

    Abraço,

     
  • At 6:19 da tarde, Blogger rafapaim said…

    Por momentos pensei que tinhas perdido o juizo... depois de tanto tempo a ler o que escreves como era possivel agora esta reflexao... mas depois tudo se explicou!!! Em jeito de filosofia barata como gosto de fazer... os homens esquecem rapido... e na historia so ficam os vencedores... Fidel sera recordado com paixao!!! Ate o Guterres e o Santana Lopes nos vamos perdoar!!! ehehe!

     
  • At 4:53 da tarde, Anonymous Maria said…

    "Sem ter sido um regime dos mais violentos não deixou de ser um regime que em nada é diferente do que foi o de Salazar: persegições políticas (e algumas execuções confirmadas), falta de liberdade de expressão, violência policial..."

    O que é isto?
    Então o regime de Salazar foram só as perseguições políticas, a falta de liberdade e a violência policial?

    E a fome?
    E a falta de acesso à escola, resultando daí um analfabetismo intolerável num país europeu?
    E o direito à saúde? E à habitação? E a guerra colonial?
    E o poder económico a controlar o poder político?

    Em Cuba, pese embora todas as dificuldades - e são muitas - que o povo cubano tem, ninguém morre à fome, as crianças são consideradas O MELHOR QUE HÁ NO MUNDO, porque são o Futuro, a Escola é para todos, não há analfabetismo desde a revolução (porque também havia nos tempos de Batista), a Saúde é grátis, têm os melhores médicos que, por acaso, até se voluntarizam para ir ajudar outros países que sofreram calamidades naturais, e a Cultura, meu Deus, a Cultura, que é o alimento do "espírito".

    E os cubanos têm isto tudo, e as dificuldades por que passam devem-se sobretudo ao vergonhoso Bloqueio imposto pelos Estados Unidos e que ainda se mantém ao fim de 40 anos.

    Não sei como é que a História vai tratar Fidel. Nem isso me interessa.

    Para mim, o importante é que o Povo Cubano possa sempre decidir da sua vida, sem interferência de ninguém. NINGUÉM.

    Conheço Cuba. Visitei tudo o que quis visitar. Falei com quem quis. Conheci escolas primárias em Santiago, com professores e alunos em festa de final de ano lectivo, conheci CDRs em Havana, falei com comunistas e não comunistas, fidelistas e não fidelistas. Mesmo estes, não gostando muito de Fidel, gostam MUITO MENOS dos ianques, como eles dizem.

    E para este povo há uma certeza: hão-de lutar até ao fim pela sua Independência!

     
  • At 6:59 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Caro Ricardo,

    E como se propõe debater seja o que fôr com um homem que chega a monologar às 7 horas seguidas?

    Annonymous XXI

     
  • At 7:02 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Ó Maria,

    Levava credencial do PCP?

     
  • At 2:26 da manhã, Blogger Maria said…

    Resposta ao Anónimo:
    Não, não levava nenhuma credencial do PCP, nem podia levar.
    Organizei a minha viagem como eu quiz. Nem pus os pés em Varadero, que é onde vão todas as viagens organizadas.
    Fui onde queria ir. E vou voltar. E o que eu escrevi foi o que eu vi. O PCP não tem nada a ver com isto. Nem eu com o PCP.
    Caro Anónimo, vá lá e depois falamos.

     

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