Filho do 25 de Abril

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sexta-feira, julho 21, 2006

882. Perguntas genéricas a qualquer liberal e socialista (3)

Mais uma interessante contribuição ao tema em debate dada pelo Hugo Mendes, do blogue Véu da Ignorância:

O Ricardo levantou no meio de uma discussão acerca da estratégia económica centrada exclusivamente na prioridade dada ao consumidor um paradoxo importante:

"Centrar a política económica nos ganhos do consumidor pode ser um pensamento viciado porque à medida que o produto é vendido a menor custo (independentemente da qualidade) o impacto que isso tem no mercado de trabalho também pode - não estou a dizer que isso acontece, mas que se não tivermos em conta outros factores, pode - estar a diminuir o poder de compra e a encolher o próprio mercado (...) É que, no fundo, o trabalhador é o consumidor e vice versa."

O que Ricardo diz é inatacável do ponto de vista lógico: os dois papéis estão 'reunidos' na mesma pessoa. Se privilegiamos o primeiro em detrimento do segundo criamos uma situação de double-bind que deixa as pessoas razoavelmente desorientadas e incapazes de seguir estratégicas colectivas. Ora, porque é que os neo-liberais não estão minimamente preocupados com este facto incontornável? Não são eles tambem trabalhadores e consumidores? Serão eles mais corajosos e capazes de enfrentar o trade-off? Ora, a resposta é simples: na prática, os fervorosos adeptos desta ideia não vivem este dilema. Se no abstracto, as pessoas são as mesmas, empiricamente, não o são de todo.

Vale a pena recordar que os trabalhadores mais atingidos pelas políticas de liberalização são, invariavelmente, os pouco qualificados e os mais pobres (os que ocupam o mercado de trabalho 'externo'); são eles que pagam a factura e correm o sério risco de ser atirados para o desemprego ou terem de aguentar empregos mal pagos e precários - mesmo que ganhem alguma coisa como consumidores (e isto já é duvidoso se o seu poder de compra se degradar; podem comprar a crédito, mas isto faz disparar o níveis de endividamento).
Os profissionais mais qualificados e mais bem pagos (os 20%/30% do topo), os que não sofrem na pele a degradação dos mercados de trabalho externos pela 'carapaça securizadora' que protege os mercados de trabalho 'internos', estão sempre bem (e isto mesmo que haja maior competitividade e maior circulação - e logo, mais incerteza - nos cargos mais elevados das hierarquias organizacionais), e os seus salários tenderão mesmo subir enquanto a maioria vê o seu poder de comprar estagnar ou diminuir. Aposto que se fizerem uma sondagem, é aqui que estão concentrados os true believers da "divinização do consumidor" - os únicos que não estão sujeitos a qualquer trade-off. Para essa minoria, o círculo é efectivamente virtuoso.

Como dizia o malogrado J.K.Galbraith:

«In the modern economy we have a large professional community – lawyers, accountants, engineers, public servants, most academics I hasten to add – who are relatively secure. Social security, pensions, and farm legislation have rescued others from the cruel uncertainty of past times. All so favoured find services more readily available in recession, and, having fixed or relatively fixed incomes, they are protected by economic stagnation from inflationary price increases. No one, I repeat, is allowed to say that he or she favours recessive or stagnant economic performance. That is unmentionable; better to take a stand for sexual harassment. The satisfaction continues».

A questão essencial é, pois, que distribuição de riscos ou do preço a pagar pela "absolutização do consumidor" é assimetricamente distribuída pelos indivíduos e pelos grupos. É para redistribuir os riscos, os ganhos e as perdas que existe a protecção social. Quando ela é residual e/ou recua, passa-se o que se passou nos EUA no último terço do século: o poder de compra dos 20% mais pobres regrediu; o das classes médias foi mantido apenas à custa da entrada das mulheres no mercado de trabalho (porque o poder de compra dos homens baixou); e os 20 por cento mais ricos viram o seu rendimento e riqueza subir em flecha.

2 Comments:

  • At 4:08 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Não sou liberal mas o mercado pode vir a ter um efeito surpreendente em questões de igualdade social (ironia das ironias...).
    Explico.
    As empresas ligadas às multinacionais deslocalizam-se à procura de custos de produção mais atractivos (mas também as outras mais pequenas vão também nesse sentido - vejam-se os empresários portugueses à procura de oportunidades de negócio no Brasil, Cabo Verde, Macau, etc.), poupança essa essencialmente nos custos relativos a pessoal, i.e., vão para onde paguem menos. Continuarão a deslocalizar as empresas até ao limite, até ao país que 'oferecer' menores custos.
    No limite terão que desenvolver esses países (sim, sei que só o farão na exacta medida em que for estritamente necessário) como aumentando e melhorando a escolaridade, melhorando as infraestruturas tanto de transporte (essenciais) como de comunicações, melhorando a saúde pública, etc, etc. Tudo isto provocará a prazo que os trabalhadores (e não só) vão começando a entrar no 'mercado' a consumir mais bens e, isto é importante, como qq consumidor a exigir mais!!
    (Para dar um exemplo simples veja-se o que começa a acontecer na China e outros países em que a ocidentalização da população, principalmente urbana, está alterar profundamente a procura de bens de consumo, bens muito mais 'globalizados).
    Continuando a divagar, esses novos consumidores (já não mais só trabalhadores) vão começar a se preocupar com outras condições sociais, como um bom sistema nacional de saúde, com reformas, com a educação dos filhos, com férias, etc, etc.)
    Aí teremos que os empresários a ter que fazer um maior esforço, pagando melhor aos trabalhadores, pagando mais impostos (que vão financiar aquelas melhorias sociais, pelo menos, a ajudar a financiar), pagando mais, resumindo, mais contribuições sociais.
    E assim acabo como comecei: pode ser que no futuro (e não tão longíquio como pode parecer) o mercado possa ter um efeito 'perverso' igualizando as condições sociais em todo o mundo.
    Qual será o passo seguinte?

    F / X

     
  • At 7:06 da tarde, Blogger Hugo Mendes said…

    Caro F/X, não é ironia, mas faz parte da teoria: o desenvolvimento do mercado aumenta, num primeiro momento, as desigualdades intra-nacionais e faz descer as inter-nacionais; num segundo momento, se a curva de Kuznetzs estiver razoavelmente correcta, nesses paises recentemente desenvolvidos as desigualdades tenderao, num segundo momento, a baixar. O que os ultimos 30 anos nos EUA (sobretudo) mostraram foi que a curva de Kuznets que previa uma diminuiçao gradual das desigualdades à medida que o paises ficasse mais rico nao se realizou: ha 30 anos que este processo redistributivo se quebrou (se quiser passe pelo meu blog, tenho varios apontamentos sobre essa questão).
    Por isso o argumento "em abstracto" de ser o mercado ou o Estado que, independentemente do estado de desenvolvimento nacional, diminui as desigualdades nao é particularmente produtivo.
    O mercado cria igualdades ou desigualdades dependendo da forma como é estruturado à partida e o seu funcionamento regularmente monitorizado. Ao contrario do que se pensa quando se coloca o "plano quinquenal" num polo e o "mercado" no outro, a verdade é que os mercados (e falo no plural porque os mercados sao muito diferentes uns dos outros) podem e devem ser planeados e desenhados com regras claras e que evitem a sua 'captura' por determinados interesses. A questao aqui é quem é que constroi e escreve as regras dos mercados junto dos Estados: se sao as unica e exclusivamente a empresas (e aqui serao obviamente as grandes empresas, que tenderao a escrever as regras consoante os seu interesses), ou se é o Estado em conjunto com os agentes economicos, tendo em conta questoes de competitividade, equidade e interesse publico. Repito, para percerbermos como isto é importante, precisamos de assimilar estas duas ideias: 1) os mercados 'naturais' não existem, não funcionam sozinhos, mas precisam de instituições e regras que os sustentem e alimentem a sua dinâmica a longo prazo; 2) a questao decisiva (de politica economica, se quiser) é QUEM escreve essas regras; se for o "mercado" a escreve-las, isso significa uma coisa: o "mercado" nao escreve coisa nenhuma, mas as empresas que nele actuam sim, e as grandes empresas tenderao a escrevê-las de forma a moldar o mercado aos seus interesses. E isto pode redundar numa situaçao que nao prejudica apenas alguns consumidores (que, na tal conversa da 'divinizaçao', são sempre filhos de um deus menor), como pode ir contra muitos trabalhadores.

     

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