Filho do 25 de Abril

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terça-feira, julho 18, 2006

881. Perguntas genéricas a qualquer liberal e socialista (2)

Em relação ao texto que publiquei ontem o BrainstormZ - do blogue O Insurgente - publicou um interessante comentário que passo a reproduzir:

"Dumping: defender consumidor ou trabalhador?

Sobre o artigo do Miguel para a revista DiaD, o Filho do 25 de Abril faz o seguinte comentário:

"A questão do preço final inferior ao custo de produção - táctica utilizada para esmagar a concorrência mais frágil - é aparentemente ouro sobre azul para o consumidor (ideia defendida, com cautela, no artigo já referido) mas pode ter como consequência o estímulo ao monopólio (menos empregos, mercado com menor capacidade de absorção dos produtos) e, numa análise dinâmica, mesmo que o poder de compra e o número de trabalhadores não se altere, a tendência é para o aumento do preço final (ao consumidor) no longo prazo. Com isto pretendo dizer que o consumidor não pode ser o centro absoluto da política económica."

Quanto ao facto do preço aumentar no longo prazo, assumindo que não existem barreiras à entrada (conforme refere o Miguel), este só poderá subir para os valores praticados antes do dumping.

Mas o processo de decisão do consumidor não envolve - na maioria dos produtos - exclusivamente o factor preço. Logo, o dumping só será eficaz em relação a produtos indiferenciados, nos quais o preço é uma importante componente decisória.

A prática de dumping, financiada por governos estrangeiros, tem como consequência o desemprego nas empresas que fabricam tais produtos indiferenciados mas, caro Ricardo, também possibilita o aumento do emprego nos sectores de actividade mais competitivos, fruto do acrescido rendimento disponível dos consumidores que adquirem os produtos subsidiados. Não são, por isso, apenas os consumidores a beneficiar com o dumping.

PS: deixar o mercado funcionar não é uma "política económica", uma vez que não exige a intervenção do Estado."


Entretanto, contra-argumentei da seguinte forma (na caixa de comentários do texto):

Viva,

O contexto do meu texto não deve ser só este parágrafo - apesar de admitir que, mesmo assim, é uma análise superficial - e a ideia base é que os benefícios ao consumidor não devem ser o principal critério de avaliação de uma boa medida (estatal ou empresarial).

"Quanto ao facto do preço aumentar no longo prazo, assumindo que não existem barreiras à entrada (conforme refere o Miguel), este só poderá subir para os valores praticados antes do dumping."

Não é líquido que assim seja uma vez que a realidade não é necessariamente igual à teoria. Uma política agressiva de "expulsão" da concorrência a um determinado produto pode levar décadas a ser compensada com a entrada de novas empresas. A aceitação de um preço inferior ao custo pode levar a que muito investimento instalado seja irrecuperável (ou dificilmente recuperável) no médio prazo.

"A prática de dumping, financiada por governos estrangeiros, tem como consequência o desemprego nas empresas que fabricam tais produtos indiferenciados mas, caro Ricardo, também possibilita o aumento do emprego nos sectores de actividade mais competitivos, fruto do acrescido rendimento disponível dos consumidores que adquirem os produtos subsidiados. Não são, por isso, apenas os consumidores a beneficiar com o dumping."

Aqui está uma afirmação interessante e que eu concordo parcialmente, ou seja, se o rendimento disponível aumenta é óbvio que novas oportunidades aparecem no mercado. Mas o que eu escrevi não foi bem isso, ou seja, o que falta avaliar é se realmente há aumento do rendimento disponível. Insisto que o consumidor é, ao mesmo tempo, o trabalhador e não é líquido que políticas agressivas de preços (abaixo do custo) criem mais rendimento disponível uma vez que a quantidade de trabalhadores (e provavelmente alguns salários) diminuem (em consequência da diminuição das empresas no mercado) o que pode resultar numa diminuição do rendimento disponível global para o consumo. Não estou a dizer que é isso que vai acontecer mas tão somente que este processo dinâmico não é linear.

Abraço,

P.S. Quanto a ter apelidado de "política económica" à não intervenção do Estado posso defender, honestamente, que a ausência de política económica é uma política económica.


Nota final: Obrigado ao Henrique pela referência ao texto

2 Comments:

  • At 9:26 da manhã, Blogger Hugo Mendes said…

    Caro Ricardo,

    Concordo quando dizes que os liberais esquecem que o consumidor e o trabalhador são a mesma pessoa; ou melhor, concordo - e eles concordam contigo - no abstracto. A grande questão é que empiricamente, nao estamos a falar das "mesmas" pessoas. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que os trabalhadores que sofrem com as politicas de liberalizaçao sao os trabalhadores pouco qualificados; são esses que estao sujeitos ao trade-off de serem atirados para o desemprego ou terem de aguentar empregos mal pagos e precarios - mesmo que ganhem alguma coisa como consumidores (e isto ja é duvidoso se o seu poder de compra se degradar). Os mais qualificados e mais bem pagos, os que não sofrem na pele a degradaçao dos mercados de trabalho externos (mesmo que haja maior competitividade e maior circulaçao nos cargos mais elevados da hierarquia organizacional), estão sempre bem, e os seus salarios podem mesmo subir enquanto a maioria estagna ou perde poder de compra: é por isto que sao os 20% mais ricos que adoram a "divinizaçao do consumidor", porque eles são os unicos que não estão suijeitos ao tal trade-off.

    Para utilizar uma linguagem de outros tempos, essa conversa de "divinizaçao do consumidor" é uma forma bem disfarçada de "luta de classes": sabe-se quem ganha, e sabe-se quem perde.

    Deixo uma frase do J.K.Galbraith que descreve isto mesmo que referi:

    «In the modern economy we have a large professional community – lawyers, accountants, engineers, public servants, most academics I hasten to add – who are relatively secure. Social security, pensions, and farm legislation have rescued others from the cruel uncertainty of past times. All so favoured find services more readily available in recession, and, having fixed or relatively fixed incomes, they are protected by economic stagnation from inflationary price increases. No one, I repeat, is allowed to say that he or she favours recessive or stagnant economic performance. That is unmentionable; better to take a stand for sexual harassment. The satisfaction continues».

    abraço,
    Hugo

     
  • At 10:07 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Hugo,

    Não tenho nada a acrescentar e só pergunto onde posso assinar por baixo.

    Eu defendo que a economia "real" seja concorrencial mas nem concordo que a tónica seja dada apenas ao consumidor nem defendo que o Estado perca os intrumentos a seu dispor de regulação e redistribuição. Acima de tudo porque, mesmo numa perspectiva únicamente económica, não sei se é líquido que o crescimento é mais rápido com políticas muito liberais ou muito centradas nos direitos dos consumidores. Defendo um equilíbrio entre a visão mais liberal e a mais socialista na economia.

    Abraço,

     

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