Filho do 25 de Abril

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quarta-feira, junho 01, 2005

(436) Europa: A Queda



“Parece que os franceses tencionam votar este domingo contra a “Constituição Europeia”. Pelas boas razões? Não, pelas más. Para se agarrarem a um passado de segurança e privilégio, que definitivamente acabou e que nem a “Europa”, com “Constituição” ou sem ela, consegue fazer voltar. Agora é a Europa (sem aspas) que se tem de adaptar ao mundo, não é o mundo que se tem de adaptar à Europa. Tão simples como isso. Dói? Pois dói.”
Vasco Pulido Valente, Público, 29 Maio 2005

O que eu quero destacar da opinião deste polémico jornalista não é o tema da "Constituição" até porque não concordo que as razões do “Não” sejam concentradas numa só e porque não devemos reduzir essas razões a “más” ou “boas”. O que é interessante destacar nesta opinião, do meu ponto de vista, é a paralisia que a Europa vive porque tem medo do futuro. A Europa não sabe se quer voltar "atrás" para reconquistar o Estado Social que sente a perder ou se quer integrar-se ainda mais para tentar manter o que tem. A Europa tem cada vez mais medo de perder os direitos sociais que demorou séculos a conquistar! Tem medo da palavra “liberal”, tem medo que o mundo se torne mais desumano.

Mas o que os europeus ainda não conseguem perceber é que o mundo já é global e que voltar atrás não é possível. Os europeus não percebem, ou não querem perceber, que não é possível manter o Estado Social que existe actualmente. A Europa anda não percebeu que os anos dourados acabaram porque o mundo está mais liberal que nunca! É quase trágico e irónico...

Dói? Pois dói.

12 Comments:

  • At 12:15 da tarde, Blogger O Raio said…

    Ricardo,

    Escrevestes:

    "do meu ponto de vista, é a paralisia que a Europa vive porque tem medo do futuro"

    Francamente não esperava isto de ti.
    Discordar das tuas opiniões é ter "medo do futuro"???
    Eu acho que é exactamente ao contrário. É que quando encontro um partidário da integração europeia o argumento que geralmente usa e abusa, é que temos de nos integrar pois não podemos ficar sozinhos (geralmente vem a seguir a estafada cantilena do "orgulhosamente sós") e aí eu acho que isto é que mostra uma imensa cobardia, um imenso medo de enfrentar o futuro.
    Eu digo alto e bom som que não sou cobarde e não tenho medo de enfrentar o futuro sem a muleta de Bruxelas. O mundo é grande e é no mundo que temos de viver competindo com todas as nações do mundo.
    Recusar isto e insistir em que nos temos de abrigar a Espanha ou à União Europeia é que mostra uma imensa cobardia.

     
  • At 4:39 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Raio...

    Eu quando falo de "medo" é num sebntido figurado e não estou a comparar graus de cobardia. O medo do futuro que eu falava não tem nada a ver com a União Europeia mas sim o medo que se instalou na Europa de não conseguir manter o Estado Social com os movimentos de Globalização. E isso vai acontecer com ou sem a UE...

    Nem comparei graus de cobardia nem chamei de cobardes os que discordam da minha opinião até porque eu não me exclui do grupo. Eu disse que a Europa tem medo de avançar na integração e medo de andar para trás (inclui assim os dois grupos) e fiz questão de discordar da análise que VPV faz do referendo.

    Por isso o que me espanta é a tua interpretação das minhas palavras...

    Abraço,

     
  • At 5:36 da tarde, Blogger Didas said…

    Les français mon dieux, les français...

     
  • At 5:37 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Costumo dizer que sou europeísta desde que nasci, aliás sempre achei que um português pelo seu passado histórico não podia ficar confinado aos seus limites geográficos e olhar unicamente para o seu umbigo. Já tivémos essa fase, ao nosso amigo Salazar faziam-lhe cócegas as borbulhas da Coca-Cola... parece que agora também! Afinal de contas o lema de "cidadãos do mundo" não passa disso mesmo, uma lenga-lenga sem qualquer significado! Quanto ao nosso amigo VPV... no primeiro dia em que ele escrever um artigo que não seja de maldizer (sobre qualquer temática), deito um foguete!

     
  • At 9:20 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Didas...

    O melhor é dizermos "Meu Deus" em todas as línguas da Europa, hehe

     
  • At 9:22 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Micróbio...

    Eu não tenho preconceitos nenhum com as perdas de soberania em relação à Europa... sempre me senti europeu, mesmo sabendo que Portugal tem ligações mais fortes com outras áreas do mundo. Mas sempre revi-me neste caldo heterogéneo de culturas e mentalidades...

     
  • At 11:41 da tarde, Blogger O Raio said…

    Ricardo,

    Podes ter toda a razão na interpretação que dás ao que dizes. Mas então não utilizes a palavra "medo". É um termo com uma certa carga e que dá a sensação de que o estás a utilizar perjorativamente.
    Estes referendos não me espantam. A base principal é que todos, mesmo que se sintam europeus e que queiram uma Europa Unida, estão fartos até aos cabelos da União Europeia, dos seus políticos e da sua burocracia.
    Uma vez estive de férias longe da Europa, claro, e caí num grupo de europeus de diversas nacionalidades.
    Falou-se sempre de coisas banais. Até que alguém falou da UE. Aí, até eu fiquei espantado, toda a gente se referiu depreciativamente à UE.
    Tens de te convencer, a UE é insuportável para praticamente todos.
    Os franceses explodiram num grito de revolta e isto soltou muita gente, gente que se recusava a criticar a UE devido à monstruosa chantagem dos integracionistas, quem discorda da UE é nazi, é anti-democrático é isto ou aquilo.
    Agora as pessoas perderam o medo. A União Europeia como a conhecemos está morta. E ou os políticos têm o discernimento de perceber isto e começar a trabalhar imediatamente noutro tipo de associação, mais aceitável para os cidadãos da Europa ou isto acaba tudo muito mal.

     
  • At 12:01 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Raio...

    Posso até dar a mão à palmatória e concordar contigo que todos detestam a UE (como exercício) mas depois também digo que todos detestam os políticos, desde os americanos aos portugueses aos franceses e por aí fora. É natural todos falarmos mal do Estado, do Parlamento, dos deputados .. .sejam os nacionais ou os internacionais. Falar mal é uma característica normal e até saudável das pessoas... mesmo quando falamos do Mourinho gostamos sempre de acrescentar uma característica menos abonatória... "aquele gajo é mesmo arrogante", "não o suporto mas..."...

    O que quero dizer é que essas conversas não provam nada e muito menos mede o estado de alma da UE.

    Acrescento uma coisa. Não haver espírito europeu prejudica qualquer tipo de integração, seja a da UE ou qualquer outra. E não tenhas dúvidas que construir uma Europa de nações ou federal nunca vai ser fácil, qualquer que seja o modelo.

    Para fechar acrescento que, mesmo com a quantidade absurda de interpretes, considero que a "administração central" europeia é um exemplo de economia de meios. E é pouco permeável às cunhas, como bem sabes.

    Abraço,

     
  • At 11:31 da manhã, Blogger O Raio said…

    "E não tenhas dúvidas que construir uma Europa de nações ou federal nunca vai ser fácil, qualquer que seja o modelo."
    E será desejavel?
    E é aqui que está o cerne do problema. Achar desejavel isolar a Europa do Mundo integrando-a, mesmo contra a vontade dos seus cidadãos.
    Não aprendemos nada com as lições da Juguslávia. Na ex-Juguslávia 10% dos seus habitantes, provenientes de casamentos inter-etnicos consideravam-se só juguslavos, desconhecendo se eram servos, croatas ou eslovenos. E mesmo assim quando aquilo arrebentou foi o que foi.
    Uma Europa constituída pela calada contra o sentir das suas populações acabará numa imensa explosão. A União Europeia não é um caminho para a paz, é um caminho para a guerra.
    E não nos podemos esquecer disto.

     
  • At 11:50 da manhã, Blogger Ricardo said…

    Raio,

    Não sei se é desejável. Mas há dois pontos a ter em conta:

    1. Não me parece possível sermos competitivos à escala global se não houver um esforço coordenado e alargado de sinergias. Bastam os EUA continuarem a influenciar a OMC e os termos de troca e, ao mesmo tempo, fazer diplomacia (e às vezes chantagem) económica para levarem este continente a uma crise se todos não estiverem a puxar para o mesmo lado;

    2. Tendo em conta o que se passava na Europa há tão pouco tempo tenho que confessar que a evolução das relações entre povos da Europa tem sido muito positiva. Há estabilidade, leia-se, há democracias estáveis e todas os países foram "obrigados" a seguir uma via de reformas democráticas para poderem ser incluídas na UE. Não tenho a tua visão da UE. Acho que o simples facto da UE exigir tantas reformas no sentido da Democracia e dum Estado menos repressor e interventivo tem mudado, e para muito melhor, a Europa de Oeste para Este. E, ao mesmo tempo, tem desincentivado a intervenção repressora russa no leste criando condições de estabilidade.

    Abraço,

     
  • At 4:29 da tarde, Blogger O Raio said…

    "da UE exigir tantas reformas no sentido da Democracia e dum Estado menos repressor e interventivo tem mudado, e para muito melhor"

    Chamar democratica à UE é ridículo.
    Por exemplo, se a França e a Holanda tivessem ratificado a Constituição nos respectivos parlamentos esta teria sido aprovada por 80% ou mais de deputados. Mas foi a referendo e o resultado foi quase o inverso.
    E agora já se clama contra os referendos. Quando se começarem a eleger deputados eucepticos clamar-se-à contra as eleições.

     
  • At 6:07 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Raio,

    Não vais resolver um problema mundial (não só europeu mas também nacional, regional e internacional) de falta de representatividade das democracias com os referendos. Concordo que também não os resolves com ratificações parlamentares mas a doença na Democracia está longe de ser um problema exclusivamente europeu. O que se passa nos EUA e mesmo em Portugal são bons exemplos do fosso entre representantes e representados.

    Abraço,

     

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