Filho do 25 de Abril

A montanha pariu um rato - A coerência colocada à prova - A execução de Saddam Hussein - O Nosso Fado - "Dois perigos ameaçam incessantemente o mundo: a desordem e a ordem" Paul Valéry, "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa, salvar a humanidade", Almada Negreiros - "A mim já não me resta a menor esperança... tudo se move ao compasso do que encerra a pança...", Frida Kahlo

terça-feira, abril 25, 2006

834. Os discursos na Assembleia da República




O 25 de Abril devia ser uma das poucas datas consensuais em Portugal (ao contrário do 24 e do 26 de Abril ou do 25 de Novembro) mas, infelizmente, esquerda e direita esquecem a importância dos valores universais da liberdade para tentar impor dogmas e lições ideológicas que só minam a consensualidade. Esta data devia relembrar que nada está conquistado, que nada é eterno e que a luta pela liberdade é uma luta constante e que temos que merecer a liberdade diariamente com responsabilidade mas não, prefere-se falar de Constituição, de sociedades de esquerda ou direita. É triste ver alguma esquerda agarrada à nostalgia do período revolucionário do "26 de Abril" e ver alguma direita agarrada à nostalgia do período colonialista do "24 de Abril".

O discurso de Cavaco Silva era o mais esperado e, na minha opinião, foi o mais insipiente que já ouvi até hoje nesta data por parte do Presidente da República. Optou por um discurso virado para o social sublinhando as desigualdades territoriais, a palavra humano e a exclusão social e não a críticas ao Governo e isso é de louvar. Mas a forma como aborda estes assuntos é etérea porque parece estar a dar uma aula teórica numa faculdade. Este discurso - muito caro à esquerda com frases como "não é moralmente exigível pedir mais sacrifícios a quem viveu na privação" - é temperado com tiques conservadores e de classificações morais - muito caro à direita com frases como "homens bons que não abandonaram as suas terras". Diria que é um discurso que pode agradar a todos mas que, de conteúdo, pouco - ou diria até nada - acrescenta e que muito menos vai ficar na memória de alguém ou que sequer vai influenciar a agenda política. É de enaltecer ter feito um discurso abrangente ideologicamente - que não causa as rupturas que falava anteriormente - mas onde está a chama e, mais importante, o que se aproveita na essência dum discurso de diagnósticos teóricos?

A forma como Cavaco Silva saltou de tema em tema - maus tratos infantis, violência doméstica, desemprego - foi desprovida de rumo ou esperança... diria que foi uma longa aula teórica de intenções consensuais ao nível social. No fim sugeriu um compromisso cívico para a inclusão social com a intenção de substituír o combate ideológico por metas. Não fiquei a perceber, em concreto, o que pretende mas parece-me mais um objectivo consensual e reconheço que nunca é demais relembrar os problemas sociais. Por mera curiosidade estou impaciente para ler as reacções a este discurso nos blogues que apoiaram o candidato.

5 Comments:

  • At 8:29 da tarde, Blogger MW said…

    Teimamos em ver o 25 de Abril apenas como um fim de algo e não como o principio de um processo. A liberdade conquista-se sempre, a todos os momentos.

    O discurso de Cavaco Silva foi um discurso estrategicamente conveniente para a celebração da data. Mas faltou o principal, o acreditar e o sentir.

    E foi, de tal ordem, óbvia a intenção e a falta de chama" que ficamos todos com uma sensação de vazio ao ouvi-lo.

     
  • At 11:24 da tarde, Anonymous FS said…

    O discurso de Cavaco só pede ser uma de duas coisas, ou um acto de contrição (o que é no mínimo duvidoso), ou mais certamente uma refinada hipócrisia, visto ter sido ele na qualidade de PM, quem implementou uma série de medidas e leis que conduziram ao estado social em que vivemos, nomeadamente o congelamento de salários e reformas e as desastrosas(para os que se iam reformar) restruturações de carreiras, entre outras ...

    Como disse o Miterrand:
    Depois de mim não haverá Homens como presidentes; apenas gestores e contabilistas.

    Uma referência ao facto do "NOSSO" PR não usar um cravo, não é de admirar visto que ele não é um homem do 25 de Abril, nunca foi, e não quer ser, não me admiraria o facto dele ser um dos que cada vez mais abertamente se referem ao 25/04/74 como serdo aquela m...
    Não é de admirar visto que até o PM se apresentou sem cravo, mas sempre com o seu fatinho Armami.
    Afinal de contas os interesses, perdão, os poderes concertam-se.

    Quanto ao discurso, é de facto uma tristeza ouvir uma máquina de calcular muito bem mandada (por quem lhe pagou a campanha eleitoral)a fazer aquele frete de parecer um ser humano, interessado e solidário, será que ele pensa que nos esquecemos da sua actuação como PM

     
  • At 7:21 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    O discurso da Cavaco faz-me acreditar na democracia. Num mundo global temos que nos lembrar que por muito que nao gostemos da globalizacao, nao agir de acordo com ela vai isolar-nos relativamente aos outros paises que compoe o ocidente.Mudar o mundo e impossivel mas sempre podemos fazer mais por Portugal e pelos Portugueses.
    O apelo de Cavaco ao empenho social foi mesmo muito positivo. Ele teve a coragem de falar nos pontos fracos do nosso pais e de nos pedir a todos um empenho social. Ele nao pediu como muitos "sacrificios" em prole da economia. A accao correcta esta no povo e na sociedade. Se formos um pouco mais abertos as necessidades dos outros vamos ser menos policos.
    Quanto ao presidente nao ter usado cravo, temos que nos lembrar que cada um de nos tem um direito basico: liberdade de pensamento e expressao. Ele e um homem antes de ser presidente, usou como homem a sua liberdade de expressao, mas o importante e que agiu como presidente que foi ao que se propos e zelou pelo povo.
    Penso que antes de falarmos devemos analisar os dois lados da moeda e o importante e que ele teve como presidente a coragem de pedir o que ate pode nao ir de acordo com o homem. Nunca o vamos saber mas o que o presidente pediu esta a ter resultados positivos. Houve concenso entre a maioria e isso e democracia. Que isto te sirva de licao e te faca pensar um pouco antes de falar. Se nao compreenderes le. Se pensas em "comunismo" lebra-te sempre que tambem ai os interesses do individual sao sacrificados em prole do colectivo. Se tiveres duvidas vai os dicionario e ve o que significa a palavra. Informa-te mais e aproveita para ver o precurso da historia penso que precisas de ser esclarecido sobre muitas coisas.

     
  • At 8:29 da tarde, Blogger MW said…

    E o anonimato vem sempre vestido de paternalismo...

     
  • At 8:29 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Anónimo,

    O que eu veiculo neste blogue são opiniões. Cada um tem uma e valem o que valem. Por isso as minhas fontes de informação e a minha pesquisa são irrelevantes num cenário meramente opinativo. Podes discordar mas lembra-te que eu também posso e, só por isso, não mando ninguém espreitar o dicionário. Aliás se leres o texto vês que apesar de não haver um grande elogio ao discurso também não há críticas contundentes a este.

    Umas pequenas notas:

    "Num mundo global temos que nos lembrar que por muito que nao gostemos da globalizacao, nao agir de acordo com ela vai isolar-nos relativamente aos outros paises que compoe o ocidente"

    Estou perfeitamente de acordo e acrescento que não só do ocidente.

    "O apelo de Cavaco ao empenho social foi mesmo muito positivo. Ele teve a coragem de falar nos pontos fracos do nosso pais e de nos pedir a todos um empenho social. Ele nao pediu como muitos "sacrificios" em prole da economia. A accao correcta esta no povo e na sociedade. Se formos um pouco mais abertos as necessidades dos outros vamos ser menos policos."

    Eu não tenho nada contra o empenho social. Também concordo que os sacrifícios têm que ser doseados e abrangentes. Mas se achas que vamos lá sem uma forte reestruturação da sociedade acho que estás enganado e há interesses instalados - e não só nas classes mais privilegiadas - que têm obrigatoriamente de sofrer uma forte reestruturação.

    "Quanto ao presidente nao ter usado cravo..."

    Não toquei neste assunto. Acho-o irrelevante.

    "Penso que antes de falarmos devemos analisar os dois lados da moeda e o importante e que ele teve como presidente a coragem de pedir o que ate pode nao ir de acordo com o homem."

    Não consigo seguir este raciocínio. Se o Presidente acha que é correcto dizer algo porque haveria de ir contra os seus princípios? Ninguém, deliberadamente, defende o que acha que é incorrecto para o país.

    "Houve concenso entre a maioria e isso e democracia. Que isto te sirva de licao e te faca pensar um pouco antes de falar. Se nao compreenderes le. Se pensas em "comunismo" lebra-te sempre que tambem ai os interesses do individual sao sacrificados em prole do colectivo. Se tiveres duvidas vai os dicionario e ve o que significa a palavra. Informa-te mais e aproveita para ver o precurso da historia penso que precisas de ser esclarecido sobre muitas coisas."

    Eu podia rebater esta fase do texto mas para não ser deselegante não o vou fazer. Até porque quem escreve neste tom não está à procura de consensos ou diálogo.

     

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