Filho do 25 de Abril

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quinta-feira, janeiro 13, 2005

(291) Défice: sim ou não?

Nos últimos anos os portugueses não ouvem falar de mais nada que não seja da palavra défice! O objectivo do Pacto de Estabilidade e Crescimento de fazer tender o défice, a médio prazo, para valores próximos do zero tem prejudicado algumas medidas conjunturais. É sabido que os Governos devem ter uma almofada orçamental para ultrapassarem a crise e o PEC tem retirado esse mecanismo importante de retoma. Mas não nos podemos esquecer dum pormenor deveras importante, também deveriam ter sido os Governos Nacionais que tinham que criar essa almofada nos anos de expansão. Se o défice partisse dum valor mais baixo poderíamos ter feito investimento na mesma no ciclo de crise. Talvez fosse altura de ter em consideração, no PEC, que nem toda a despesa deve ser condicionada. Já defendi que só a despesa primária devia entrar no défice, mas mesmo assim Portugal estava com um dos piores desempenhos europeus.

Mas há aqui uma questão de fundo. O défice deve ou não ser um objectivo nacional, independentemente das restrições da UE? Eu acho que sim. Mesmo que Portugal não estivesse condicionado pelo PEC, o único caminho possível era seguir o mesmo objectivo da UE para aliviar as despesas do Estado para o investimento e diminuir o peso dos juros da dívida pública na economia. Por isso as famigeradas receitas extraordinárias, que nada de bom trazem à nação, estariam a ser utilizadas na mesma devido à incapacidade do Estado em reformar a Administração Pública e os seus gastos.

Mas agora há dados novos. Os EUA têm optado (ou têm sido incapazes de inverter a tendência) por défices orçamentais e comerciais ímpares na sua história. O défice comercial dos EUA já vai em 6% do PIB, isto apesar da constante desvalorização do dólar. Nem o dólar nem a descida do preço recente do petróleo têm invertido esta situação. Em Novembro, contra todas as expectativas, as exportações americanas caíram 2,3% e as importações cresceram 1,3%. E o mais curioso é que a UE foi uma das grandes culpadas do agravamento do défice americano, apesar do dólar já ter perdido 50% do seu valor face ao Euro desde o início de 2002. Mas a realidade é que a economia americana tem crescido muito por culpa deste mecanismo de pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro para incentivar o seu consumo e o défice orçamental tem impedido danos maiores. As empresas americanas não têm reagido tão bem como dava a entender o crescimento num país cada vez mais dependente da produção alheia.

A menos que os EUA usem a sua força diplomática para eternizarem as suas dívidas o problema americano pode ser grave. Qual é, então, a melhor estratégia? Crescer por via do consumo e de défices sucessivos como nos EUA ou estagnar mantendo as contas dentro de limites aceitáveis como na UE? Eu acho que, no médio prazo e a menos que haja uma posição de força surpreendente dos EUA, a UE vai ter muito mais potencial de crescimento (mas também sabemos que é difícil exigir aos EUA o cumprimento das suas obrigações). Melhor estão outras economias asiáticas que fecham o “gap” em relação à UE (ou melhor, ao conjunto dos países que a integram) e aos EUA. Eu só acho que a UE devia mudar a sua estratégia, flexibilizando as despesas de investigação e em investimentos reprodutivos, sendo ainda menos flexível no chamado défice primário. Seja como fôr, o défice primário português carece de ser controlado mais eficazmente se queremos crescer...

*Tópicos Relacionados:
(17) – Reflexões Orçamentais – para duma vez por todas compreender o que se passa com Portugal... (1 de 2)
(18) – Reflexões Orçamentais – para duma vez por todas compreender o que se passa com Portugal... (2 de 2)

8 Comments:

  • At 9:53 da tarde, Blogger BlueShell said…

    Venho só deixar um beijo e o meu muito obrigada por tudo! BShell

     
  • At 10:22 da tarde, Blogger O Raio said…

    Sobre o deficit português é necessário levar em conta que a UE custa-nos muito caro. Portugal envia pa a UE uns 800.000 contos por dia e, para recebermos dinheiro da UE somos obrigados a gastar dinheiro pois os fundos vêm em forma de participação e para os receber temos de por o resto.
    Além de que o "aquis communitaire" custa também muito dinheiro, milhares e milhares de regulamentos e resoluções para cumprir e também a participação todos os dias da semana (excepto em Agosto) de muitos técnicos portugueses que têm de se deslocar a Bruxelas e que entretanto gastaram muitas tempo a preparar essas mesmas reuniões.
    Quanto ao "despesismo" de governos anteriores acho estranho que ninguém refira os custos da introdução do Euro. Nunca os vi citados para Portugal, mas já vi calculos para o Reino Unido ou para a Suécia e são astronómicos!
    Tudo isto é muito superior a 3% do PIB...
    Quanto ao problema do dólar, é um facto. E terá consequências funestas no futuro. E não será o Euro que o evitará, antes pelo contrário...

     
  • At 10:32 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Raio... as perguntas de fundo ficaram por responder:

    O défice deve ou não ser um objectivo nacional, independentemente das restrições da UE?

    Qual é, então, a melhor estratégia? Crescer por via do consumo e de défices sucessivos como nos EUA ou estagnar mantendo as contas dentro de limites aceitáveis como na UE?

     
  • At 2:08 da manhã, Blogger DP said…

    Deve haver entendidos para dar a resposta!Mas também acho que não devemos cair no fundamentalismo do défice e andar a vender os aneis só para criar um défice ilusório que mais tarde vai ser muito dificil de recuperar.Veja-se o caso da Alemanha que segundo os últimos dados vai apresentar um défice de 3,9% e é o terceiro ano consecutivo.Arte por um Canudo

     
  • At 2:58 da tarde, Blogger O Micróbio said…

    Eu já ando a aprender a falar chinês... assim nãon terei problemas no futuro!

     
  • At 5:27 da tarde, Blogger Ricardo said…

    DP... concordo contigo! A obsessão é quase maníaca, mas se não resolvermos o problema estrutural e não utilizarmos receitas extraordinárias os juros da dívida pública ganham ainda nais peso nas despesas!

     
  • At 5:28 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Micróbio... então um dia destes podes ir ensinar aos chineses umas músicas novas para quando o nosso Presidente lá voltar!

     
  • At 12:06 da manhã, Blogger mfc said…

    O problema está e estará sempre na repartição dos custos sociais que tal medida implica.
    Que ela é precisa... sem duvida que é!

     

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