Filho do 25 de Abril

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quarta-feira, julho 13, 2005

497. Sim, vou voltar a falar da Economia




Dizem que os economistas falam, falam mas não fazem propostas consequentes para resolver os problemas do país. Vou tentar contrariar essa ideia...

Diagnóstico do Banco de Portugal:

- [Portugal é] “um país com [um nível de desenvolvimento] intermédio e de pequena dmensão”. [Por isso, está na] “pior situação perante a integração europeia e a globalização”: “Não tem dimensão nem massa crítica para competir em áreas mais tecnológicas, nem pode competir por custos”, [em comparação com países com mercados maiores ou em estados menos avançados de desenvolvimento.]

- [Em 2004], “interrompeu-se o ajustamento dos desequilíbrios que estava em curso desde 2000”; [houve um] “aumento importante do consumo e da procura interna”. [Esse aumento] não sinificou uma subida da produçãp, mas sim das importações” [-um reflexo da] “falta de competitividade” [da economia portuguesa.]

É portanto obrigatório que a estratégia do Estado:

- Não insista numa economia competitiva pelos custos em concorrência directa com países num estado de desenvolvimento inferior porque estamos fadados a perder sempre.

- Passe por apostar na qualidade e diferenciação, assumindo que Portugal está preparado a entrar na próxima fase de desenvolvimento. Nesse caso convém apostar nas áreas mais tecnológicas ou nos produtos diferenciados que possam competir com as economias que tenham custos mais elevados na protecção social e recursos humanos mais especializados e caros. Para isso precisamos de massa crítica em recursos humanos e dum mercado potencial alargado que não se resuma ao mercado nacional. Por isso é obrigatório continuarmos a ser uma economia aberta!

- Atraia Investimento Directo Estrangeiro (IDE). Para que isso aconteça precisamos de recursos humanos especializados, uma fiscalidade competitiva e leis do trabalho mais equilibradas entre empregador/empregado.

Então sugiro ao Estado algumas medidas concretas e indispensáveis para retomar o rumo do crescimento:

- É necessário apoiar fortemente a exportação. E como um dos maiores problemas das exportações prende-se com o risco financeiro da transacção devíamos imitar a política espanhola neste campo. O Governo Espanhol, perante uma encomenda, assume o risco da transacção dispensando as garantias bancárias. Se a empresa estrangeira não cumprir o pagamento o Estado paga à empresa exportadora e assume o papel de cobradora da dívida;

- Temos que diminuir a dependência com o exterior via importações. Como não adianta fazer políticas proteccionistas que aumentam o mercado paralelo e provocam sanções temos que fazer uma análise das nossas dependências e necessidades. Um exemplo óbvio é o sector energético e temos que grarantir maior produção a preços menores de energias alternativas ou não, para garantirmos a nossa independência energética. A utilização de tecnologias limpas e eficientes a nível energético nas casas, empresas e transportes deve ser subsidiada e incentivada;

- É necessário estancar a subida dos impostos já! A única solução para que isso aconteça é diminuindo as despesas de funcionamento do Estado e as despesas socias. Aqui está um dos maiores desafios que vai mexer com as regalias de todos mas que é inevitável para que, no futuro, não hajam cortes ainda mais drásticos (proponha muitas medidas neste campo mas, dado o número elevado das mesmas, esclareço mais tarde num post independente);

- A introdução do mérito é essencial para aumentar a qualidade dos serviços públicos. Adicionalmente é crucial simplificar os processos de funcionamento do Estado. Ninguém imagina como a burocracia e a ineficácia dos serviços do Estado prejudicam a economia. Seja porque a justiça é lenta, porque as listas de espera na saúde provocam absentismo, porque é difícil obter autorizações e licenças, porque a educação é muito desigual e desconexa, porque o Estado é mau pagador e por aí fora;

- O combate à evasão fiscal e ao desperdício a nível social tem que ser implacável. Não só é necessário aumentar o número de efectivos no combate à evasão como simplificar o sistema e promover regalias aos cumpridores. O Brasil, por exemplo, troca facturas de restaurantes e outras que não usamos em sede de IRS para oferecer ingressos em espectáculos de índole cultural. Cumpre dois objectivos: combate a evasão e torna a cultura menos dispendiosa para o Estado. A situação de impunidade actual cria um ciclo vicioso de desrespeito pelas funções do Estado;

- A fiscalidade tem que ser diferenciada. Não me canso de defender que um sistema fiscal competitivo não é aquele que baixa as suas taxas mas sim aquele que premeia a inovação, a formação, a incorporação de tecnologia, a utilização de energias limpas, os criadores de emprego e por aí fora. Mas para isso acontecer sem fiscalização é melhor nem iniciar esse rumo porque ia acontecer o mesmo que aconteceu no cavaquismo, com outros moldes porque eram subsídios, com os fundos da União Europeia . Temos que nos habituar que a execução das leis é tão ou mais importante que a qualidade das mesmas.

Fica muito por dizer e fazer mas o post já vai longo. Portugal ainda não está arredado das oportunidades de melhoria da qualidade de vida. Temos é que romper com um modelo de desenvolvimento esgotado. Mas sem dramatismos porque a confiança também é um critério económico. Voltando a parafrasear Rita Blanco em Noite Escura: Toca a dar andamento a isto...

11 Comments:

  • At 9:05 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Caro Ricardo

    Não me levarás a mal se te disser que o teu discurso, perdão o teu texto, é bem elaborado, sustentado e apresenta soluções.
    A sua semelhança com um discurso de campanha eleitoral, de tomada de posse de um Primeiro-Ministro ou de uma apresentação do programa de Governo na Assembleia da República é nenhuma.
    Há mais que suficientes estudos elaborados em Portugal, onde se diagnostica os problemas estruturais do país, mas sempre se insiste e insiste em novos e mais novíssimos estudos e duram e duram os períodos de reflexão sobre os estudos e o que fazer.
    E o que fazer?!
    Tudo o que tu dizes e mais alguma coisa.
    Mas como?
    Eles prometem (os políticos), têm os estudos e não os aplicam! Os outros cidadãos (os não políticos), vivem chorando num vale de lágrimas, protestam, acendem velas a Nossa Senhora da Luz, da Boa Esperança e quase incendeiam o Santuário de Fátima, mas não cumprem o que lhes é pedido, nem atingem que é para o seu bem.
    Caro amigo, são mais de oitocentos e muitos anos de cepa torta e quão arrependido estará D. Afonso Henriques, de andar à estalada com a mãe e às escaramuças com o primo, para fundar um país sem viabilidade económica.
    O seu único consolo é que faz parte da História, vive na imortalidade há 820 anos e não na República Portuguesa e que na sua altura não haviam economistas que lhe dissessem que este país não teria viabilidade nenhuma.
    Isto não é pessimismo, é ser realista com a situação do país. Ou exportamos a maioria dos portugueses, a preços de saldo obviamente e voltamos a povoar Portugal, importando gente empenhada, dinâmica e consciente ou … fo…mo-nos.
    É já a seguir…

     
  • At 8:23 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    [Por isso, está na] “pior situação perante a integração europeia e a globalização”. Isto é um facto. Não compreendo porque não fechamos as fronteiras. Será que perdemos a soberania? Mas ela reconquista-se. A globalização conduz à guerra.

     
  • At 9:00 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Ricardo,

    Parece que um dos maiores problemas de Portugal reside na falta de produtividade das chefias aos níveis médio e superior, conforme um estudo realizado pela OCDE. Assim, os trabalhadores ao nível da execução até têm uma produtividade bastante elevada, mas os dirigentes, talvez em consequência do efeito de Peter, tornam-se uns autênticos "nabos"!

    Um beijo,

     
  • At 11:43 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Anónimo,

    Como obrigar os políticos a aplicar os programas?

    Pior... como fazer com que os cidadãos portugueses percebam que não podem estar agarrados a direitos que não temos hipótese de sustentar?

    Acrescento... como abanar este país?

    Quem responder a estas perguntas terá a minha admiração eterna!

    Abraço,

     
  • At 11:48 da tarde, Blogger Ricardo said…

    TNT,

    Explica-me o que ganhamos em fechar as fronteiras?

    O que tens contra produtos 100% mais baratos? Só porque são doutro país? Se não podemos produzir a custos mais baixos não vamos estar a gastar todo o nosso rendimento em bens ineficientes! Devemos é apostar na produção de bens onde conseguimos retirar valor acrescentado!

    O proteccionismo só gera atraso!

    Abraço,

     
  • At 11:58 da tarde, Blogger Ricardo said…

    Anastácia,

    Confesso que o Princípio de Peter foi das teorias mais divertidas que estudei. Para quem não sabe o que é:

    "De acordo com o autor, em organizações burocráticas hierarquicamente estruturadas os funcionários tendem a ser promovidos acima do seu "nível de incompetência". Passo a explicar, o autor, a partir de um conjunto de observações, mostra como os funcionários costumam começar em posições hierárquicas inferiores. Porém, quando se mostram competentes na tarefa que desempenham, normalmente, são promovidos para posições hierárquicas superiores. Esse processo mantém-se até atingirem uma posição onde já não são competentes. Isto é, uma posição onde as competências que despoletaram a sua ascensão já não são as necessárias para essa mesma posição. E, por isso, visto que a despromoção não é um mecanismo habitual, as pessoas mantém-se nessas posições prejudicando a organização onde se encontram. É isso que Peter designa por "nível de incompetência" - o grau a partir do qual as pessoas já não possuem competências para a posição que ocupam. Existe, inclusivamente, um aforismo tradicionalmente atribuído a Peter e utilizado para explicar este princípio. Diz assim: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence”."
    http://socioblogue.weblog.com.pt/arquivo/040014.php

    O que defendes não contesto! A realidade é que o Estado não pode obrigar, no sector privado, as pessoas a serem competentes. Mas pode criar sinergias e incentivos para estimular a economia. Claro que se o sector privado não responder é difícil sair da situação em que estamos. Mas considero que o Estado ainda tem muitas mudanças a fazer, quase uma refundação das suas funções e métodos!

    Um beijo,

     
  • At 10:59 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Todos os países bem sucedidos praticam o proteccionismo. USA, Japão, Alemanha, França, etc. Há formas mais ou menos camufladas de se ser proteccionista.
    Se eu comprar os produtos mais baratos importados, aumenta o desemprego e deixa de haver dinheiro até para comprar esses produtos baratos. A globalização fomenta a guerra.

     
  • At 1:44 da tarde, Blogger Ricardo said…

    TNT,

    O proteccionismo pode até ter efeitos temporários positivos mas não há nenhuma razão lógica para perpertuar-se no tempo excepto qundo um sector precisa dum tempo limitado para reestruturar-se ou quando há novas empresas no mercado. E mesmo assim...

    No médio prazo só provoca ineficácia, retaliações e contrafacção.

    Abraço,

     
  • At 5:59 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Começo por dar a palavra de honra que não venho aqui de modo diletante. Apenas como não sei a técnica e a linguagem precisa da disciplina, limito-me a declarar intençõs e dar conta de histórias que se encaixam na discussão. Dito isto, sigo.
    -A Economia é a 1ª da Ciências sociais.De aí eu criticar certos comportamentos.
    -Estamos a desenvolver-nos, apesar dos GOVERNOS. Esta é a minha sincera opinião.
    (Lá vem o Raio com o cacete!)
    -Há 30 anos éramos Romenos.Ou não?
    -Fico furioso com os choramingões, que não se pode fazer nada, que não vamos a lado nenhum, com este povo nada se pode fazer, que não vale a pena,que é genético,etc,etc.
    O pessimismo é um dos principais componentes da relação causa/efeito do atraso deste país.Ser pessimista é ser REACIONÁRIO e do piorio.Pode-se não ter optimismo num governo, mas isso é outra coisa completamente diferente !!!
    Penso que estou certo, e se não estou , convençam-me do contrário!
    Esta é para o Raio: o patriotismo implica o optimismo.
    (Raio, não me batas mais, porra!)
    É claro que vez em quando fico de joelhos.Mas também é natural.

     
  • At 12:36 da manhã, Blogger Ricardo said…

    C. Indico,

    Eu tento não ser pessimista! às vezes não é uma tarefa fácil!

    Mas ser exigente e insatisfeito com os portugueses, com os Governos e comigo próprio não é uma questão de pessimismo mas sim uma vontade de ver as coisas a andarem para a frente.

    Quanto a te sentires bem aqui agradeço essas palavras. Também agradeço o contributo que dás a este espaço e à sua vivacidade. E apesar de usar algumas palavras mais caras sei que o segredo está no senso comum, desde que doseado com experiência e alguma racionalidade. De teorias estamos todos fartos...

    Abraço,

     
  • At 12:38 da tarde, Blogger Unknown said…

    c. indíco,

    "A Economia é a 1ª da Ciências sociais."
    ??????????

    A Economia não é uma Ciência.
    Uma Ciência coloca hipóteses, faz previsões baseadas nessas hipóteses e verifica-as. Se as previsões falham alteram-se as hipótses ou fazem-se novas.
    Na Economia nada disto acontece. A Economia faz hipótses e previsões. Estas geralmente falham...
    Depois o econoimista, baseado nas mesmas hipótses, explica porque é que falharam!
    O economista só faz previsões correctas depois do jogo!

    "Estamos a desenvolver-nos, apesar dos GOVERNOS. Esta é a minha sincera opinião."

    Concordo. Apesar de todo o esforço feito pelos Governos (quer de portugal quer da Europa) para não nos desenvolvermos lá vamos conseguindo qualquer coisa.
    Emboa isso se deva em parte ao saudável dinamismo da nossa economia paralela.

    "Fico furioso com os choramingões, que não se pode fazer nada, que não vamos a lado nenhum, com este povo nada se pode fazer, que não vale a pena,que é genético,etc,etc."


    Eu também!

    "O pessimismo é um dos principais componentes da relação causa/efeito do atraso deste país.Ser pessimista é ser REACIONÁRIO e do piorio."

    Concordo!

    "o patriotismo implica o optimismo."

    Concordo também!

    E, é este o principal problema.
    Portugal não tem, nem nunca teve, lugar na União Europeia. A importância de portugal no Mundo é muito superior á sua dimensão e muitos países habilitam-se a ser os herdeiros desta influência.

    O primeiro passo é vergar-nos e reduzir-nos á nossa dimensão.

    A adesão à União Europeia veio dar a esses países os instrumentos necessários para nos colocar de joelhos a morder o pó.

    A pseudo crise em que estamos é uma crise totalmente fabricada para nos amarfanhar. E o pior é que teve o apoio terrorista de muitos portugueses, portugueses só de BI, Cavaco, Durão, Manuela Ferreira Leite, e agora os nossos governantes actuais.

    Um abraço,

    P.S.: Não respondi antes porque fiquei sem Internet em casa

     

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